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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A VISITA MELANCÓLICA

Não, aquele poema que salta
da rica poeira da vida
não veio me abrir.

As janelas amedrontadas
fecharam a rua e abafaram o som.
E do lado de lá, o lado de lá, fala dos carros,
abrem outras conversas...
Talvez muitos barulhos esperem por mim...
há saudades dos meus livros,
do meu quarto sem cortinas,
dos meus quadros a me olhar.

Há tantos dias estou por aqui
e tenho sede de voltar pra casa
aqui dentro só tem solidão
e eu já conheço a pele azul do céu.

Marta Eugênia

LUZINDO

Nem é pileque
E algumas coisas não estão tão verticais,
Nem tão horizontais.
Portas e janelas sofrem multiplicações.
Enquanto converso
Com as coisas que penso de perto
Santa Luzia obedecida na madeira decora meu
Criado mudo.

Marta Eugênia

TENTAÇÃO

Obra divina criação perfeita
Tens sonhos altíssimos como borboleta
Monumento belo digno de carinho
Flor que desabrocha e que tem espinho.

Espinho que fura e dores provoca
Tens lábio carnudo que morde e sopra
Lábio que anseia prazer sem limite
E a cada mês tem uma sangretite.

A sensualidade é tua ascensão
Provoca arrepio desejo e tesão
Tu estás acima de qualquer pudor
És fonte de prazer e também de amor.

Te compreender é missão impossível
Porque és difícil tens plano infalível
O teu olhar é arma de sedução
Que em segundos nos rouba o coração.

Teu corpo libera o cheiro do pecado
Cheiro que excita e nos deixa molhado
Tu sabes fingir sem transparecer
Em horas picantes exalas prazer.

Tu és o pecado em carne e osso
O qual leva a alma ao fundo do poço
Tu mexes conosco fazendo o que quer
És a tentação e teu nome é MULHER.

Fabrício Oliveira de Lima, 2010

UNEAL – Universidade Estadual de Alagoas



SONETO JÁ ANTIGO

OLHA, DAISY: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Fernando Pessoa

FAZER POESIA

Escrever poema não é coisa fácil
As ideias vêm, as ideias vão
Poucas palavras, ou quase nenhuma
Ficam.

Escrever poema não é coisa fácil
Ah! Como eu queria que
Escrever poema fosse como bater punheta
Quando vem a vontade
Se vai lá
No banheiro,
No quintal,
No quarto
Ou até mesmo na praça
E concretiza.
Mas não é assim o poema
Escrever poema não é coisa fácil.

Aldemir Francelino

Oficina de Poesia – I FUCA – Festival Universitário de Cultura e Arte
UNEAL – Universidade Estadual de Alagoas
03/12/2010

CANÇÃO PARA UMA VALSA LENTA

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo.
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

Mário Quintana

ACHANDO-SE UM BRAÇO PERDIDO

O todo sem a parte, não é todo;
a parte sem o todo não é parte,
mas se a parte o faz todo, sendo parte,
não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo o sacramento está Deus todo
e todo assiste inteiro em qualquer parte,
e feitos em partes todo em toda parte,
em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja forte
pois que feito Jesus em partes todo,
assiste em cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
um braço que lhe acharam sendo parte
nos diz as partes todas deste todo.

Gregório de Matos Guerra

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR

Pequei, senhor; mas porque hei pecado,
da vossa alta clemência me despido;
porque, quando mais tenho delinquido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vós irá tanto pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido:
que a mesma culpa, que há ofendido
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra HISTÓRIA.

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos Guerra

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SONETO DO MAIOR AMOR

MAIOR AMOR nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir e fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinícius de Moraes (1938 – Oxford)

SONETO DE SEPARAÇÃO

NAS TARDES DE FAZENDAS há muito azul demais
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúmes
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um plá não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Vinícius de Moraes