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sábado, 1 de novembro de 2014

SAUDADE

Eis a causa da angústia e indiferença que, a cada pedaço do dia, vem consumindo Beto avassaladoramente. O rapaz, intelectual que é, a princípio, pensou ser nostalgia. Verificou que nostalgia é algo poético, não é o caso. Seu mal é cru, tem gosto de rejeição. Então, prefere que, quando mencionada a figura dela, trate de saudade. Ela é a personificação da saudade. Beto é estudante de Letras e, nos últimos dias, andou afogado nos livros de literatura, procurando esquivar-se das reminiscências que insistem em dar o ar da graça nas situações mais costumeiras. Lá se vão duas madrugadas varadas. O hálito de Beto é café puro, dá até para distinguir a marca. Os poucos que o conhecem andam estranhando as olheiras mais acentuadas que nunca. O tempo passa feito criança. Criança de rua, que bate carteira, relógio, pulseira, comida ! Comida para manter sua energia de batedor de carteira nos grandes centros, cheios de gente boa pinta e burguesa. Esses mesmos meninos são acordados aos berros pelos donos das lojas onde, nas calçadas, eles dormem, essa gente boa pinta. Beto vê essas crianças todos os dias. Vive no Sudeste. Onde gente burguesa cruza com criança de rua todo dia, assim como o tempo passa nas carreiras levando, ao longo do vento, essas histórias para gente como Beto. Beto disse ter enorme carinho em ler Capitães da Areia. — E aqui, leitor, faço questão de expôr diretamente minha opinião sobre a obra de Jorge Amado. Tive, assim como Beto, um sentimento de amor gigantesco durante a leitura maravilhosamente engrandecedora. Recomendo por demais. — Então, o rapaz vê as crianças de tal forma como visse um parente próximo. Embora, de tão descuidado que anda, perdera a carteira para um desses moleques há poucos dias.
Não lhe fez falta, apesar da vida de estudante. Imaginou que os garotos tenham se divertido com aqueles vinte e poucos reais. Imaginou que tenham compartilhado alguns pães pela noite, imaginou que tenham saciado parte da sede que lhes acomete todo mísero dia. Tais pensamentos arrancaram um leve sorriso e algumas lágrimas do rosto sonolento do rapaz. E, naquele dia, não fumou. Esperou bater as 5:00 h da manhã, pegou seu sobretudo velho, pôs a boina "à lá Neruda" e retirou-se do quarto onde permanecera alguns dias. Saiu de casa em direção ao litoral, onde seu Manoel já abria o quiosque. 
Cumprimentou seu Manoel, cordial como de costume. O velhote deu bom dia e um sorriso largo. Beto era cliente antigo. Tinha mania de passar horas no quiosque de seu Manoel, vendo a linda paisagem que se escondia logo atrás. Pediu um café e duas bolachas, como era seu hábito.
Então, perguntou seu Manoel:
— Que faz por aqui tão cedo, meu filho ?
— Precisava ver o sol de perto, seu Manoel.
— É lindo, não é, meu filho ?
Beto tinha apenas os olhos fixos no sol que ainda nascia aos poucos, apesar do horário. Seu Manoel teceu mais um ou dois elogios à natureza ali presente. O rapaz já estava metido em seus pensamentos, com olhos miúdos de quem não dorme há dias. O velhote trouxe-lhe um café, fez um também para si e sentou-se ao lado do garoto. Beto agradeceu, pôs duas colheres de açúcar e tornou a beber. Depois de uma ou duas goladas, acendeu um cigarro. Não tocou nas bolachas.
Seu Manoel perguntou:
— Há quantos dias não dorme, meu rapaz ?
— Três. Disse ele acompanhado de um leve sorriso seguido dum bocejo.
O velhote sorriu. Olhou o sol por uns instantes e a calmaria do mar. Era um dia lindo. Seu Manoel tinha uma vitrola velha que sempre o acompanhava por onde quer que fosse. Naquela hora, um homem com voz calma e grave, acompanhado dum violão estilo country, tocava na geringonça.
Seu Manoel era um velhote esperto, conhecia das malandragens e dramaturgias da vida, sabia bem o que era aquela falta de vontade estampada na expressão do rosto do rapaz. Claro, só podia ser.
— Quem é ela, meu filho ?
Beto tinha um cotovelo apoiado no balcão do quiosque e uma mão no queixo, com a outra rodeava a borda da xícara com o dedo indicador.
Ao ouvir o velhote, ficou imóvel. Ninguém, nem mesmo em casa, sabia o que se passava com o rapaz, nada notavam. Beto espantou-se a princípio. Fitou o velhote com certo ar de gratidão e respondeu:
— É a saudade, seu Manoel. Saudade dum abraço, dum beijo e duma fala com ternura. Uma fala que só a saudade tem agora, para não falar do resto...
Nos olhos miúdos de sono do rapaz, seu Manoel avistou de que se tratava o rapaz, e quase transbordou.
Beto conteve a carga de lembranças que estava tendo com uma golada seca no café já frio, como se bebesse cachaça.
— Eu te entendo, rapaz. Teve um tempo que fiquei feito tu. Mas, com uma diferença: no lugar do café, era cachaça. De resto, fumava e quase não dormia do mesmo jeito. Já fosse atrás ?
Beto achou graça na fala do velhote. Talvez por alívio de encontrar alguém que o entendera.
— E como fui. Só rejeição...
O velho se retirou do banco. Entrou no quiosque. Olhou no relógio e já passavam das 5:30. Fez outro café e o trouxe. Voltou a sentar-se no banco e pôs outra xícara em frente ao rapaz.
— Esse é por conta da casa. Disse.
Num instante, o velho puxou uma foto antiga do bolso. Comida pelo tempo e pelo contato constante ao qual era exposta.
— Pra tu ver que é verdade.
Pôs a foto ao lado da xícara de Beto. Era duma moça graciosa. Olhos claros, tom de verde mar, cabelos de cacho e um sorriso de uma ponta à outra, muitíssimo encantador. Atrás, datava de 1967, numa tinta bem apagada. 
— Tanto tempo assim ? Perguntou Beto espantado.
O velhote, olhando seguramente para o sol, disse:
— Meu maior erro, meu filho — e fez uma expressão triste retendo o olhar à xícara — foi nunca mais ter ido procurá-la. Quando era menino, assim na tua idade, eu era orgulhoso e vaidoso. Enquanto eu ouvia dizer que ela sofria, eu queria mesmo era esquecer aquela história. Nunca nada tinha me afetado como aquela história. Eu era quieto, bebia sozinho, em casa mesmo. Sempre gostei de poesia e era lendo elas que chorava noites inteiras.
Hoje — e parou um momento —...
Tomou um gole de café, reparou no sol outra vez.
continuou:
— Ela tem uma família toda. Volta e meia um filho dela vem aqui no quiosque tomar uma água de coco. Cada rapaz alto, bem apessoado, parecidos com ela. Ora comentam que a mãe falava que conhecera um rapaz na juventude e que amara o rapaz como ninguém. Mas pede segredo aos filhos e diz que é um velhote que tem um quiosque na praia. Os garotos até fazem ideia de que eu seja o tal velhote, mas eu sempre nego, mudando de assunto.
E eu, meu rapaz, eu só tenho esse quiosque e uma casinha mais pro interior.
Beto o olhava pálido, boquiaberto. Não fazia ideia que aquele velhote tão alegre passara por tal situação. Esqueceu o café e deixou cair o cigarro. Quis falar, mas travou.
O velhote riu e deu o ultimato:
— Não se incomode tanto com as rejeições , meu rapaz. Sei que doem, mas você pode ser mais forte que elas, mesmo que tenha de se esforçar.
Vá e faça dela e com ela sua família. E só apareça no meu quiosque para me apresentá-la. O café será por minha conta.


MACÊDO, Gustavo de.

TU JÁ SONHOU COMIGO?

Marina estranhou quando, do nada, um rapaz se aproximou dela e, olhando em seus olhos, ele disse:
— Tu já sonhou comigo?
Marina, branca que era, corou. Os olhos se encheram de surpresa. Deu um sorriso involuntário de tão espontâneo que saiu.
O rapaz também sorriu, sem a mínima vergonha. Mas quem era aquele fulano tão cara de pau ? Se perguntava Marina. E, sem querer, foi tomada por aquela dúvida.
Ora, poderia ser o garçom, pensou. Mas que garçom atrevido seria ! E ele não usava farda. Ao contrário. O sujeito parecia nunca ter usado uma farda na vida, de tão despojado que era. Vestia uma camiseta preta que tivera as mangas cortadas para se tornar camiseta, calção de jogo meio desbotado, talvez pela velhice do tecido. Mas tinha um sorriso simpático, um sorriso largo que convidava para uma prosa, aqui e agora, assim, "carpe diem".
Ele tinha um andar tão desajeitado, reparou Marina quando ele se aproximava, que não havia condições de ser um jogador, mesmo amador. De fato, ele não tinha aquele gingado de ousadia e alegria no andar, usava sandálias bem simples e o semblante do rapaz realmente não se encaixava com o desses boleiros estilosos: Era barbudo, carregava nos olhos olheiras de quem quase não dorme, tinha tudo para ser um chato logo de cara, porém, carregava uma suavidade em toda a face, brandura que contagiava. E aquele brinco de argola quebrara de vez qualquer postura séria possivelmente atribuída ao rapaz.
Minutos antes, Marina se encontrava sozinha na mesa onde estava, comendo um pão frio e bebendo um café meio morno. Estava lá na lanchonete do seu Juju. E, naquele dia — raro —, a lanchonete se encontrava quase vazia. Seu Juju era sensação na cidade, fazia um cachorro quente como ninguém. Fora a alegria típica que sempre o acompanhava, seu Juju não negava um sorriso a ninguém. E era impossível não sorrir de volta. Seu Juju tinha uns olhos orientais que praticamente sumiam sempre que ele sorria, como vivia sorrindo, estava sempre com uma expressão jocosa estampada no rosto. Marina dera duas mordidas no pão e o deixara de lado, o olhava com uma cara feia, feito essas crianças birrentas. A garota estava com os cabelos assanhados, a cara feia olhando o pão frio, unhas de esmalte ruído e uma expressão de desgaste que se espalhava pela figura dela. Faltava pouco para completar o rótulo — clássico — de menino buchudo: Catarro escorrendo e um pijaminha velho e rasgado que um dia fora rosa.
Entrou um rapaz na lanchonete. O rapaz era cliente antigo de seu Juju e sempre o cumprimentava com tamanha felicidade. Embora fizesse sempre aquele carnaval ao cumprimentar o oriental, todos ainda olhavam estranhamente por um breve momento. Nem seu Juju, muito menos o rapaz, se incomodavam com isso.
O rapaz sentou-se ao balcão e pediu um suco de jaca com leite. Como de costume. Terminou seu suco, pagou e, quando pelo caminho da saída, avistou a figura triste duma moça sozinha. Achou intrigante. O rapaz tinha um ar de palhaço, e tinha mesmo o dom de fazer as pessoas rirem com facilidade. Perspicaz que era, logo formulou algo e se aproximou dela. E lançou uma pergunta acompanhada dum sorriso:
— Tu já sonhou comigo?
Pouco depois, disse:
— Rodrigo. E já foi logo puxando a cadeira e sentando ao lado da moça.
Ela apenas tinha um sorriso leve e as bochechas visivelmente coradas.
— Tu é doido? Disse ela ainda com um leve sorriso.
Ele riu e olhou ao redor. Estava mesmo vazia a lanchonete naquele dia.
Ele a olhou nos olhos. Ela tinha uma expressão de quem não acreditava naquilo.
Parece que esquecia, a medida que aquele relógio velho pregado na parede da lanchonete corria os ponteiros, que andava sem vontade havia três meses. Aos poucos, ia perdendo a postura de "menina buchuda". Claramente tinha os olhos mais alegres.
— E tu, tem nome? Disse Rodrigo.
— Marina.
Clichê, ele disse:
— Tem cara mesmo. E sorriu.
Continuou ele:
— Pensava que tu ia me mandar pegar o beco, com a cara de menina birrenta que tava...
— Folgado você, né?
— Minha mãe quem diz. Deu uma gargalhada leve.
Rodrigo sempre levava um lápis no bolso e um bloquinho já meio velho.
Puxou os dois do bolso e rabiscou algo com uma letra troncha, difícil de entender.
— Espia se tu gosta. E mostrou dois versos a ela.
— Foi tu que fez?
— Parece ser meu tipo?
— A letra ? Tua cara. Agora, ela quem gargalhou da cara que fez o rapaz, e com gosto.
— Tá se soltando, né, Maria? Ironizou.
— Marina, poeta.
— Engraçado, tem um desenho aí que parece contigo. 
Tomou o bloquinho da mão da moça e pôs numa folhinha miúda que continha uma bola com dois pontos e um traço fazendo alusão a um sorriso.
— Ah, bestão. Quem é birrento agora?
Ele deu língua e depois sorriu.
De repente, Rodrigo se levantou e fez sinal de despedida com a mão. Deu dois passos e olhou a moça nos olhos. Deu um último sorriso e saiu da lanchonete do seu Juju.
Marina nada entendia. Estava claramente confusa com aquele contraste. Ora ele chegara do nada e oferecia um sorriso e uma pergunta sem sentido. E, do nada, saia sem dar explicação. "Típico dos homens", pensou. Mas ela sentiu atração pela simpatia de Rodrigo. Tomou atitude, afinal, era mulher, era decidida, destemida. Levantou-se para perseguir o rapaz e inquirir, afinal, o que o desgraçado queria com aquilo, se era só brincadeira ou se, de repente, ele era esquizofrênico. Quando reparou uma folhinha miúda e amarela sobre a mesa. Lá estavam os dois versos e, atrás, o número do rapaz.

MACÊDO, Gustavo de.


PALAVRAS RESSONANTES

Sabe aquela música que você gosta, mas, de tanto ela ecoar na cabeça, ela se torna torturante, quase que impiedosa? Era o que perturbava Gabriel. Embora não fosse bem uma música, o eco e as demais características estão valendo. O desgraçado andava pensando até em consultar um psiquiatra. Era um caso crítico.
Há um bom tempo, Gabriel já não vinha em paz. Era atordoado, durante grande parte do dia, por uma voz, um gesto, um rosto, um sorriso, um olhar. Estranho, de fato, o estado do rapaz. Aos seus amigos mais próximos, aquilo era um mistério. E dos mais sinistros. Daquele que dá um arrepio só de imaginar. E causava calafrios no rapaz. Em resposta aos amigos, ele dizia apenas "É minha culpa". Fala acompanhada de um semblante transtornado. Ao proferir a frase, ele sempre desviava os olhos em direção ao chão. Denotando arrependimento.
Dias e dias corriam. Não cessavam os tormentos do rapaz. Eis então que, numa madrugada qualquer, Gabriel abriu uma garrafa de vinho que compara logo cedo na bodega de seu Mara. Seu Mara era assim chamado em alusão a um sujeito afeminado que aparecia na tevê num desses seriados ou minisséries. De fato, seu Mara, por vezes, paquerava, com indiretas, os rapazes bem apessoados que apareciam na bodega. Era um velhote solteirão que tinha uma tristeza aparente no rosto e, para não dizer que vivia sozinho, tinha um gato com o nome de Carlão.
Sempre que chamava por Carlão, fazia uma entonação na voz que a deixava fanhosa e quase feminina. Mas seu Mara não dava muito valor a Gabriel, não como dava a outros rapazes. Pois, há muito tempo, Gabriel se envolvera com uma sobrinha do velhote que volta e meia andava pela bodega do tio.
Gabriel era um tipo caseiro. Tinha voz grave, ombros largos e sempre se dirigira com firmeza a seu Mara. Sempre gostou do velhote, Gabriel nunca o recriminara e até o admirava por assumir aquela sua postura na idade que estava e em meio a uma sociedade hipócrita e conservadora. E aquele jeitinho de seu Mara nunca o incomodara. Por vezes, se acabava de rir quando seu Mara chamava o gato Carlão. Apesar dos distúrbios que enfrentava atualmente, Gabriel era um jovem de cabeça saudável, sabia respeitar o posicionamento alheio em relação às escolhas que, decerto, cabe a cada um. Seu Mara via isso e tinha respeito pelo rapaz.
Então, tornou a beber a garrafa. A medida que bebia, o álcool fazia efeito, cumpria a sua função clássica de fazer esquecer tudo aquilo que persistia em sua memória. E, naquele momento, admitiu para si que aquelas imagens eram dela. Só podiam ser. Sim, sabia disso o tempo inteiro, mas, por fraqueza, nunca admitira. Todos aqueles traços o doíam tanto como um dia o fizeram bem.
— Ô meu Deus! Mas nem assim some! Berrava sozinho no quarto enquanto olhava o vinho com desdém. Era verdade que o vinho apagava, temporariamente, um pouco daquele tormento, mas, não completamente.
O infeliz cogitou a possibilidade de, durante o momento em que afogava as mágoas da forma mais clássica que há, pôr a trilha sonora que daria a sentença seca da sofrência. Exatamente. Pablo: a voz romântica. Mas parou um instante e se recompôs do delírio. Ainda não estava embriagado o suficiente. Não para tamanha sofrência.
E quem era aquela, de uma vez por todas ?
— Isabela ! Ô peste, Isabela ! Choramingava.
Já ultrapassava 1:30 da madrugada. De uma vez, Gabriel declarava de quem eram todas aquelas imagens. Isabela.
Isabela fora a moça mais apaixonante que o rapaz já conhecera. Sabe aquela diferente ? Era esse o maior adjetivo que ele a atribuía, se não o maior, o mais frequente, certeza. Ela era diferente de tudo e de todos, era a própria diferença.
Por fim, era aquela que detinha, nas mãos, o coração do pobre. Com clichê e tudo.
Passada aquela noite. No dia seguinte, Gabriel foi ao seu Mara comprar outra garrafa de sua terapia. Chegando lá, seu Mara fitou a garrafa que o rapaz pôs no caixa. Intrigado, seu Mara via que era um vinho de tipo diferente. Pouco comprado pelos clientes usuais. Então, seu Mara, com sua voz fanhosa, disse:
— Rapaz, só tem duas pessoas que andam pela bodega que gostam disso aí.
Gabriel, curioso, preguntou:
— Quem, seu Mara ?
O velhote respondeu:
— Você e uma moça. Ela me disse o nome outro dia.
Pensou, pensou. Por fim, exclamou:
— Ah ! Isabela o nome dela. Isabela !


MACÊDO, Gustavo de.

UM SONHO


De súbito, Jorge acordou duma sucessão de imagens terríveis. Pobre Jorge. Há muito não dorme, não é mais o mesmo. A rotina o definha devagar, mansamente. Só ele não percebia... Até a madrugada de 31 pro dia 01 de novembro. Isso. Mês onze, mês novo, mês de renovação. É mesmo interessante a ideia de que, a cada novo mês, se abre uma nova porta para a realidade. Tem também aqueles que acreditam que isso ocorre dum dia pro outro. Vai saber. O fato é que Jorge não via nada de novo. Batiam ali, seguramente, como em todos os outros dias que se passaram, 3:00 h da manhã. Parecia um ciclo. Jorge não sabia ao certo seu início. Muito menos o fim. Pobre Jorge. Tentou dormir de novo. Foi inútil. Deu 3:30, 4:00, 4:30. Não. Agora, ele tinha de tomar uma providência. Estava complicada a coisa. Claro. Levantou-se, fez um café e se pôs a escutar Los Hermanos num velho fone de ouvido que só prestava um lado. Começou a negar tudo aquilo que tinha visto. "Foi terrível", pensava. Jorge estava mesmo farto dessa cenazinha repetida. Estava cansado, o corpo doía, a cabeça, por vezes, dava marteladas internas numa tentativa de comunicar ao desgraçado que ele já estava abusando demais. Jorge estava mesmo extrapolando. Se dormisse, era um ato quase involuntário. Até aí tudo bem. Complicado mesmo era todo aquele confinamento. Mas, antes disso, o que fazia esse sujeito durante todo esse tempo de virgília ?
Devorava, progressivamente, os livros de literatura que dispunha. Era mesmo um apaixonado por contos, crônicas, romances. Quando uma ou outra leitura o causava tédio, ele recorria às crônicas de Luís Fernando Veríssimo e soltava gargalhadas contidas por conta do horário. Era estudante do curso de filosofia duma universidade local. Mas não ia à faculdade há meses, pois os professores da rede pública estavam todos de greve. Jorge achava um tanto chata aquela situação, porque o atrasava em sua formação acadêmica. Mas, por outro lado, apoiava com sensatez e afinco os professores, pois sabia do descaso, que já se estendia há um certo tempo, para com a classe. No fim das contas, foi até melhor a paralisação. Jorge estava tão emergido em suas reflexões filosóficas que estava dificultando o contato com outras pessoas. Ora, não é mesmo bom exagerar e reter-se apenas numa coisa, visto que há tantas outras para se explorar. Foi então que Jorge entregou-se aos livros de literatura. Não sei bem se entendeu a mensagem...
Jorge era novo, mas, principalmente ultimamente, andava com um aspecto envelhecido, com o cansaço estampado na cara.
Decidiu sair de casa numa noite dessas. Foi numa exposição cultural de um colégio de sua cidade. Chegando lá, encontrou um conhecido e pôs-se a conversar com o fulano. Conversa vai, conversa vem e eis que, depois de Jorge expôr a situação na qual se encontrava, o sujeito diz:
— Bicho, tu vai ficar doido. E sorri.
Jorge sorri e, saindo, diz:
— Tomara que daqui pra lá eu já tenha escrito uns quatro livros.
Ah, é. Este é um detalhe que quase me escapou. Jorge era escritor. E passava por uma nova fase, turbulenta, mas interessante. Passado aquele encontro, olhou ao redor e nada o chamava atenção. Não pensou duas vezes. Voltou para casa. Foi chegando e logo deitou-se, pois suas pernas o maltratavam por conta daquele meio tempo que passou caminhando e em pé. Apagou. Não sabe quando, como, mas sabe o porquê. A cena se repete. Mais uma vez, despertou repentinamente. Às 3:00 h da manhã. Fez todo aquele seu ritual e já umas 5:10 foi lá dentro de casa esquentar o café. Quando regressava ao quarto, reparou no céu. Estava lindo. Pequenas nuvenzinhas brancas cobriam aquele manto gigante e azulado. De modo que se via apenas umas brechas de todo aquele mar de cima. Já no quarto, pôs "Mon Nom", de Rodrigo Amarante. Jorge apreciava bastante o francês e as canções de Rodrigo. Foi então que resolveu tirar aquelas cenas que, desta vez, o fizeram acordar. Jogou-as nuns pedações de papel que sempre costumava rabiscar.
O que se passou então ?
Naquela noite...
Antes disso, há um outro detalhe que quase me esqueci. Jorge vinha passando por um momento delicado. Até aqui, não há algum segredo. Curiosa é a participação de uma mulher na vida de Jorge. Clarice. Ah, Clarice...
Não faz muito tempo. Jorge conhecera uma tal de Clarice na faculdade. Os dois se aproximaram e se identificaram bastante quase que de imediato. Foi tão natural que Jorge a convidou para sair com mais ou menos uma semana de conversa. Se iniciava então o início dum amor.
Era uma tarde ensolarada de Junho, uma quinta-feira, dum ano que me falha a memória. O fato é que foi esse dia que Jorge jamais esqueceu.
Clarice sempre fora uma moça linda e adorável. Eram incríveis os olhos dela quando via a figura barbuda e baixa de Jorge. Apesar de serem praticamente da mesma altura, ela sempre caçoava dele por ele ser baixinho. Jorge abria o largo sorriso. Adorava sorrir com Clarice. Adorava estar com ela, mesmo que nada fizessem. Só em ver o tempo passar ao lado dela era motivo duma expressão abobalhada que Jorge carregava para onde quer que fosse. Sem dúvidas, aquela cara de idiota era culpa dela e somente dela. Duraram pouco mais de seis meses juntos. Após a separação, ela mudou de curso. Sempre sonhou mesmo em ser psicóloga. Seguiu adiante então. Essa história pede outro conto ou, simplesmente, se encontra fragmentada pelos contos que Jorge produziu desde então.
E naquela noite, Jorge acordou com uma expressão de tristeza mais acentuada que nunca. Queria chorar, não sei se o fez. Sonhara que Clarice deixava de ser completamente quem um dia Jorge conheceu. Não era Clarice, não podia ser. No fundo, depois de grandes conflitos consigo mesmo, talvez, embora não quisesse, acreditava que Clarice já não era mais aquela Clarice. Não era mais sua e estava mesmo muitíssimo longe de ser, quiçá, outra vez.
Foi um sonho tenebroso. Daquele que se lembra os mínimos detalhes. Via a imagem da moça por completa desfigurada. Agora, ela tinha uma tatuagem na lateral esquerda da mão esquerda. Era algo escrito em francês, por ironia. Mais irônico ainda é o fato de , deste pormenor, Jorge não recordar muito bem. Forçou sua memória, de fato a espremeu, mas, por azar, nada saiu. Foram várias as hipóteses que formulou do que seria aquela possível palavra ou palavras. Ficou entre duas. Poderia ser algo do tipo: "Não há mais sentido persistir em algo passado", ou, "No fundo, eu ainda espero te encontrar. Corra, nem tudo está perdido."
E Jorge, depois de duas xícaras de café e várias meditações, saiu do quarto para olhar mais uma vez o céu. Estava mais aberto, mais convidativo.
As circunstâncias nada eram favoráveis. Um pingo de otimismo era algo irracional. E daquelas duas frases, Jorge gostou mesmo foi da segunda. Pensou nela mais uma vez e sorriu.


MACÊDO, Gustavo de.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

OS LAÇOS DE FAMÍLIA

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
— Não esqueci de nada? Perguntava pela terceira vez a mãe.
— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar – perturbado em ser o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. “Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha… Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos – e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que… – Catarina olhava-os e ria.
— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.
— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.
— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra, “a proteger uma criança” …
— Não esqueci de nada…, recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah! – exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar – por que não chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.
— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.
— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada…
— …não esqueci de nada? perguntou a mãe.
— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas – porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou… Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.
— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.
— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com seu pai:
— Dê lembranças a titia! gritou.
— Sim, sim!
— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.
— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela – o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade – tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja – a força fluia e refluia no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora “sua”, e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.
— “Ela” foi?
— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia “mamãe” nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro – e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.
Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança voavam…
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho… mas o quê? “Catarina”, pensou, “Catarina, esta criança ainda é inocente!” Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. “Catarina”, pensou com cólera, “a criança é inocente!” Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.
“Mas e eu? e eu?” perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. “Com o seu sábado.” E sua gripe. No apartamento arrumado, onde “tudo corria bem”. Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro – deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria – sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria – sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos – sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar… e o elevador não pararia por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.
— “Depois do jantar iremos ao cinema”, resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.
Clarice Lispector
Extraído do livro Laços de Família, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998



SOBRE A ESCRITA

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo  a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras.
O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.  Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.  Sim, mas é a sorte às vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse  ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.
Clarice LispectorExtraído do Projeto Releitur

RESTOS DO CARNAVAL

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morreríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo, eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.
Clarice Lispector

Felicidade clandestina. Rio de Janeiro:Rocco, 1998.
Extraído do Portal da Faculdade Sumaré

Fonte: http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/19/restos-do-carnaval  Acesso em 24 de setembro de 2012.

FELIZ ANIVERSÁRIO

A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. “Vim para não deixar de vir”, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.
Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.
E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.
Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!”  No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.
E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.
De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo.
Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.
Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.
Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.
 — Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.
Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.
— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.
A velha não se manifestava.
Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.
— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.
A velha não se manifestava.
Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.
— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!
— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.
— Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!
Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos.
E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito “89″. Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, “vamos! todos de uma vez!” — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês.
Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira.
Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor – e acendeu a lâmpada.
— Viva mamãe!
— Viva vovó!
— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.
—  Happy birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett.
Bateram ainda algumas palmas ralas.
A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.
— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó!
E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.
— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.
— Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga.
Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.
Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de rebuliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda.
E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?
E por assim dizer a festa estava terminada. Cordélia olhava ausente para todos, sorria.
— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.
— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápido pelos músculos da cara.
— Hoje é dia da mãe! disse José.
Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.
— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.
— Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos.
Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio.
Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinqüenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não agüenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.
— Me dá um copo de vinho! disse.
O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.
— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha.
— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. — Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me dá um copo de vinho, Dorothy! — ordenou.
Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis.
Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.
Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.
Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.
E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cordélia, Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqüilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.
— Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo.
A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.
— Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas.
Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.
Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.
Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa.
Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.
— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.
— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.
— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio disse distraído enxugando a palma úmida das mãos.
Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o, lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heróico, risonho.
E de repente veio a frase:
— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido.
Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.
— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão.
Então ela abriu a boca e disse:
— Pois é.
Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:
— No ano que vem nos veremos, mamãe!
— Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.
Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.
As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ação de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranqüilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.
Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.
— Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloqüente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: “Pelo menos noventa anos”, pensou melancólica a nora de Ipanema. “Para completar uma data bonita”, pensou sonhadora.

Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.
Clarice Lispector