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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ROJÃO NO CÉU



Atravesso a Marques da Silva
como de costume depois paro pra um café.
as buzinas ferozes da segunda-feira,
o som tumultuado das pessoas
me tiraram da cama mais cedo.
Mas quando eu era criança
havia outro modo que despertava o dia:
minha mãe ligando o rádio
o grito do chocalho e a voz de Zé do Rojão
‘acorda minha gente’ e recitava Zé da Luz:
“três muié, três irimã, três cachorra da mulesta
eu vi num dia de festa, num lugar Puxinanã...”
Meu pai cutucando o meu dedão do pé:
tá na hora de levantar, mocinha
pra não perder a escola.
Meus pais se foram, o rádio aquietou-se de velho.
Eu e um poema de Zé da Luz ficamos atônitos
no meio da praça
quando ouvimos o barulho do Rojão subindo ao céu.


Marta Eugênia

ACHADOS E PERDIDOS


achei na sombra um novo escuro
pra perguntar a duração das pálpebras
para dentro.
E essa luz me oferece uma vontade
que prescreve a antecedência:
Um rabo de olho cutucando uma coragem.
Por um instante compreendo aquilo
que não há como se dizer.
Mas agora lembro que se foi
e não há nada pra chorar.



Marta Eugênia

sábado, 7 de dezembro de 2013

A CRIADA



Escuta este gole de cerveja
e engole comigo, no fundo,
a tua astúcia, teu modo sorrateiro
de evitar placas de incêndio.
Escuta o gole dos surdos trovões,
tiros e culatra...
tiros, ecos lá atrás...
sente o som do gole
desse amor desmesurado
e que nasceu por aí...
de alguma fala confortável de tua parte.
De algum espírito que ronda o corpo.
De ideia criada.
Mas criada não tão criada quando criada.

Marta Eugênia

domingo, 17 de novembro de 2013

O QUE É, O QUE É?

Estudante, violonista e poeta

Por Daniel Henrique

O que é, o que é?
É um ser humano normal
Mas tem uma força incrível
Supera todos os obstáculos
Com unhas, dentes e braços
E sem nem esboçar cansaço
Faz até o impossível
O que é, o que é?
Tem o amor mais fácil de identificar
E o mais difícil de medir
Não para, não desiste
Mas luta, briga, insiste
Sempre está disposta à levantar
Mas nunca aceita cair

O que é, o que é?
Nem rima para ela existe
Homenageá-la, é difícil de fazer
Pois nem todos os versos líricos
Com todos os seus artifícios
Conseguem ser sequer precisos
Ao descrever a alegria de ser, e ter.

Mãe.

SANGUE



Pinga, cada gota valiosa
Deste líquido da vida
Pinga, aquilo que já foi outrora
Impagável e majestosa
E não simples mercadoria

Jorra, como um vulcão em erupção
Quando não mais satisfeito
Luta, de corpo, alma e coração
Sangue azul!? O meu não!
Eu me orgulho em ser vermelho!


Por Daniel Henrique

DAS CONTRADIÇÕES



E é naquela hora, que o dedo coça
Pra escrever algo que não devo
Algo que quando dito, choca
Choca tanto que eu nem me atrevo.

Logo eu, que me julgava tão sincero
Escondo o que mais quero dizer
Engraçado, estas sempre do meu lado
Mas nem tens ideia do quanto gosto de você.


Por Daniel Henrique

RODOPIOS


Uma taça, e mais uma
Vou virando
O meu mundo
Vai girando
E quando ele para
É você que está lá
Então eu torno à virar
Pra ver se paro de pensar
Que quando ele para de girar
É você que está lá.




Por Daniel Henrique

IDEIAS REVERSAS

Por Daniel Henrique

Só queria te pedir algumas coisas
Que por favor, continue sem me notar
E independente de qualquer coisa
Não ouse por mim se apaixonar

Não me beije, não me abrace
Não deixe que eu fique perto de ti
E mais importante do que tudo isso
Não faça nada do que te pedi.

ORDENS


Por Daniel Henrique

Cala-te, não questiona
Só executa o que te foi ordenado
Sonhos? Pobre criança...
Todos eles, junto com a esperança
Ao paredão foram mandados

Sentes falta deles? Não te preocupas
Aqui lhe darei um novinho em folha
O sonho de uma "pátria soberana"
Que custa vidas humanas
E mais alguns sonhos na forca.

Atira, bate, mata
Derrama o sangue alheio
Alheio disse eu?
Esse sangue é o mesmo que o teu
Chega de poemas, acabou o recreio.

SORRISO


Por Daniel Henrique


Lá estava eu, em mais um dia parado
Mais um dia "mais ou menos", enfim
Então, sem perceber, virei para o lado
Por quê para aquele maldito lado? Diabo!
Naquele momento exato, ela estava sorrindo pra mim.

Então de "mais ou menos", o dia desandou
Se foi pra mais ou pra menos, ainda não decidi
Mais desejo, o coração palpitou
Menos esperanças, o cérebro falou
Maldito momento que ela sorriu para mim.


sábado, 26 de outubro de 2013

PRENDAS MADA LENAS


Professora e poeta


As palavras levantam cedo
Para encontrar os poemas
Em ciranda giram semanticidades
De se tirar o chapéu.
Aqui encenam palavras
Um legado tão diverso
Que faz jorrar novos planos.
Mar de lendas,
Mar de prendas Madalenas
Pendurados no varal.

Marta Eugênia

domingo, 6 de outubro de 2013

NOSSO TEMPO

Carlos Drummond de Andrade
I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

sábado, 18 de maio de 2013

LetraMENTE



Ouço daqui do meu quarto
o ofício de um galo
madrugando as horas.
Minha forma inventada
por meus pais
inaugurou-se num agosto
do ano de sessenta e cinco.
Meu primeiro poema
já sabia olhar pra trás
como fazem as memórias.
Uma saudade danada
de tudo que carecia
das palavras
pra morder o tempo
E de tudo que escrevo
há um traço indefeso
dos retratos.

Marta Eugênia

sábado, 22 de dezembro de 2012

MIRA LEXICAL


Quero as palavras
de tal modo entrelaçadas,
que um poema perceba-se nelas.
Quero-as desinibidas de seus nimbos.
Abrangentes e creditadas em seus espectros. . .
Mesmo encaixadas sobre o chão do papel,
Mesmo que uma após a outra,
como às vezes as forcingas
ou os humanos na fila do pão.
Quero-as poliglotas,
até o último sentido.
Acusando os sintagmas
e ampliando a semântica.
Abrigadas em livros de capa dura,
arremedando-se para o mundo
e modificando os escuros
como prometem os vagalumes.

Marta Eugênia, em 24 de outubro de 2012.




quinta-feira, 29 de março de 2012

MALABARES PARA UM COTIDIANO

Dentre os meus tenho o sotaque
mais estranho.
Meus versos partem em busca
de esconderijos pela casa.
Zanzam noturnos como ratos na cozinha.
Mas falo do palco, do trapézio,
do contorcionismo lexical da poesia.
Eles fazem sim com a cabeça,
simulam sobre os olhos atenção
e engatam com a prosa corriqueira:
o vizinho que pôs o lote à venda,
a ração do gado que deve ser complementar,
a ingenuidade capital que tinha nosso pai.
Fico por aqui, prendo nos olhos
feições secretas do mandacaru.
E da cozinha surge a voz da mesa posta.
Mas nos amamos sob a mesma lona
e construímos ali juntos
nossos trejeitos inocentes.

Marta Eugênia

sábado, 14 de janeiro de 2012

O SONHO

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A OUTRA PORTA DO PRAZER

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só o amor pode inventar,
Procura o estreito átrio do cubí­culo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.

De Carlos Drummond de Andrade




POEMA DO CU

Cu,
Porteira redonda
Cercada de fios de cabelo
Por onde passa o sinuelo
Das tropas que vem do bucho
Pra conservar as tuas pregas
Não precisa muito luxo
É só limpar com macegas
No velho estilo gaúcho

Te saúdo cu de índio xucro
Sovado de tanta bosta
Por que coragem tu mostra
Quando a merda vem a trote
E se ela é meio dura
Devagar tu não te apura
Pra evitar que te maltrate

Velho cu miserável
Sempre de boca pra baixo
Pois sendo cu de índio macho
Desses que caga em tarugo
E nunca deixa refugo
Se alguma merda carregas
É só limpar com macegas
Ou mesmo usando um sabugo

Mártir do corpo
Malquisto e desprestigiado
No mais das vezes cagado
E enferrujado na rosca
Teu destino é coisa tosca
Pois enquanto a vida passa
A boca bebe cachaça
E tu sempre a juntar mosca...


Ary Toledo

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A PALAVRA MÁGICA

Certa palavra dome na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procura-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SONETO À LUA

POR QUE TENS, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como teu criança assim
Quem te criou tão boa tão boa param o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina Lua!

Vinícius de Moraes, Rio 1938