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segunda-feira, 27 de junho de 2011

HAROLD BLOOM


Harold Bloom (Nova Iorque, 11 de julho de 1930) é um professor e crítico literário estadunidense. O professor ficou conhecido como um humanista porque sempre defendeu os poetas românticos do século XIX, mesmo num tempo em que suas reputações eram muito baixas.
Bloom é autor de diversas teorias controversas sobre a influência da literatura além de um defensor ferrenho da literatura formalista (a arte pela arte), em oposição a visões marxistas, historicistas, pós-modernas, entre outras.
Em Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades, coletânea de contos organizada por Bloom e editada em português, Bloom afirma que foi um menino bastante solitário apesar de rodeado por familiares carinhosos, e continua solitário depois de uma vida inteira dedicada ao ensino, à leitura e à escrita. "Mas teria estado bem mais isolado se poemas e histórias não tivessem me alimentado, e se não continuassem a me incentivar", completa.
Bloom é um dos grandes impulsionadores contemporâneos do conceito de Cânone Ocidental.
Shakespeariano, um dos grandes defensores da chamada "bardolatria", escreveu Shakespeare - A Invenção do Humano e Hamlet - Poema Ilimitado, dois grandes ensaios sobre o bardo.
Terry Eagleton, teórico da literatura, afirma que "a teoria literária de Bloom representa uma volta apaixonada e desafiadora à ‘tradição’ romântico protestante". Para ele "a crítica de Bloom revela com clareza o dilema do liberal moderno, ou humanista romântico, o fato que não é possível uma reversão a uma fé humana otimista, serena, depois de Marx, Freud e do pós-estruturalismo, mas que por outro lado qualquer humanismo, como o de Bloom, tenha sofrido as pressões agônicas dessas doutrinas".
Atualmente leciona humanidades na Yale University e inglês na New York University.
Harold Bloom, aparentemente, leu tudo o que há para ler. Durante mais de meio século Bloom leu incansavelmente. Seus autores favoritos são também, em grande parte, os mais famosos e devemos agradecer a Bloom o fato dele, no seu incansável ofício de leitor, resenhar para nós tais autores famosos e, entre esses, tantos extremamente cansativos.

A maldição do crítico literário é que ele, mais do que qualquer homem de letras, tem que estar vivo, mesmo que de forma figurada. O bom crítico literário lança para o futuro seus limites, conseguindo às vezes abranger uma era ou predizer uma nova. Mas não pode, ao contrário do escritor, sobreviver ao tempo.
Obviamente ele não poderá, depois de morto, fazer a crítica dos novos escritores que surgirão e das estranhas modalidades que a sensibilidade literária trará à tona. Com o tempo, forçosamente, toda crítica literária tende ao obscurantismo. O prisma gira lentamente e filtra outro espectro, o que vale dizer que toda percepção literária muda com o tempo.
Bloom escreve sobre o Dr. Johnson e pula por cima de outras críticas, contemporâneas, pessoas tão sagazes como Edmund Wilson ou George Steiner, que foram leitores poderosos e escritores idem. Eleger Samuel Johnson como crítico preferido implica em compartilhar o mesmo prisma do grande crítico mas, para nossa tristeza, há uma tristeza latente no que Bloom escreve. Talvez esse prisma tenha sido quebrado duramente pela passagem do tempo que produziu, por exemplo, duas grandes guerras e moldou, à força, uma nova e não necessariamente melhor, sensibilidade.
Bloom procura criaturas e valoriza, justamente, as criaturas mais perfeitas, ou seja, as mais consistentes. Ou seja, Bloom ama o teatro e, além do fato de confundir, sem aviso prévio, teatro com literatura, não se dá conta das limitações do primeiro ou não se dá ao trabalho de analisar isso.
Teatro é obra literária, sem dúvida, mas é, no máximo, gênero literário. Exige-se alguma explicação para colocar um autor teatral ao lado de um romancista. Bloom faz o mesmo que Manuel Puig, escritor menor, argentino, que apenas troca a ordem das coisas e confunde literatura com teatro. Por falar em Argentina, Bloom tem dificuldades em assimilar Borges, talvez por que Borges seja o antiteatro, entre outras coisas.
Bloom procura, quase religiosamente, os deuses criadores através de suas criaturas. Shakespeare, sob esse aspecto, é merecidamente o criador supremo. Nada se compara à extensa, variada e viva galeria de personagens criada pelo bardo. Quanto mais poderoso é o criador, mais vida empresta a seus personagens de forma que estes já não são seus arautos, o criador não fala através deles porque eles têm vida própria e são arautos de si mesmos.
Isto é, sem dúvida, um feito notável em literatura e Shakespeare, segundo Bloom, é o mestre absoluto. Temos que concordar. Sob esse prisma, Shakespeare é incomparável. Mas existem outros fatores e, alguns, alheios à capacidade individual do escritor. O problema da transposição entre idiomas é assunto longe de ser resolvido. Shakespeare não resiste bem ao português, principalmente no Brasil. O discurso às vezes hermético, às vezes parabólico de Shakespeare não encontra apoio no sub-português falado no Brasil, obrigando os tradutores a um exercício de retórica quase incompreensível. A culpa, evidentemente, não é de Shakespeare, mas a distância de sua alta retórica para a nossa simplificada fala é um abismo difícil de ser transposto. Bloom se engana ao afirmar que Shakespeare é absolutamente universal, no sentido de ser apreciado igualmente no mundo inteiro. Não é não. O povão mundial talvez aprecie apenas o fato de que suas peças são, em grande parte, rádio novelas baratas. Mas a outra dimensão, a dimensão verbal de seus personagens, que está acima do enredo dessas peças e que constitui a arte quase insuperável de Shakespeare, nos escapa. Não temos, pelo menos hoje, no Brasil, um idioma capaz de refletir o brilho verbal de Shakespeare.
Grande parte (para não dizer a totalidade) da literatura dos séculos precedentes ao século vinte é composta de solilóquios, circunlóquios, hipérboles, palavras chatas e excessivas, volteios e imprecisões – a insustentável lerdeza do ler e do escrever é o título do ensaio (que Milan Kundera não poderia produzir) sobre a chatice sem par da literatura européia até o séc. XX. Há exceções, claro. Contam-se nos dedos. Mas a grande maioria dos autores assombra, como o fantasma de Hamlet, aquela outra e verdadeira minoria silenciosa: nós, pobres leitores.
Quem já leu, ou pretende ler Em Busca do Tempo Perdido? A piada é cruel e de mau gosto, mas necessária: ao final das dez mil páginas constata-se o tempo perdido. Não há nada que Proust possa nos oferecer, hoje, e a inegável maestria da escrita, mesmo em traduções ruins, não é suficiente para sustentar o volume excessivo da deformidade sentimental da obra. Proust e seus personagens são de um outro mundo, distante, doentio e excessivamente melancólico. Um mundo enfermo. Não que o mundo, depois de Proust, seja mais saudável. Mas é mais dinâmico e não comporta mais as prostrações de Proust (o trocadilho é inevitável: proustrações).
Kafka ainda nos surpreende com a grande barata. Mas o que se inicia como um choque, a transformação de Gregor Samsa, se revela apenas um artifício para outra litania desesperadora sobre o Pobre Coitado, o único personagem kafkaniano. Kafka escreveu páginas sobre seu único tema, o Pobre Coitado. A força de Kafka vem do modo como ele escreve sobre esse tema e não do Pobre Coitado em si, que é uma das pragas mais insidiosas da literatura européia, ou ocidental, se quiserem. Há quem goste.

Werther, o jovem de Goethe, raia o retardamento mental. É difícil entender Werther, não a especulativa ingenuidade ou os previsíveis estados emocionais do personagem, já que entendemos imediatamente o que ele demora a se dar conta, mas a pieguice inerente como pilar central da obra. Sem aquela pieguice não há Werther e é difícil acreditar nisso.
Bloom é um tipo de leitor entre vários outros tipos. Quantos tipos existem? Não sei responder a essa pergunta, mas percebo que Bloom percebe e busca o conteúdo das obras que resenha. Na verdade, essa é a forma mais comum de leitura. Procura-se o que o autor está dizendo, o que ele tem a dizer, digamos, sua filosofia. Mas existe aí um problema, não solucionado. Existe outra coisa na literatura, fundamental, pela qual Bloom passa batido. Essa coisa define cada autor, cada livro, de forma que dois autores, usando o mesmo idioma, escrevendo a mesmíssima história produzirão obras tão diferentes entre si quanto dois flocos de neve da mesma nevada vistos ao microscópio.
Cada autor tem seu estilo, e estilo é quase tudo em literatura. Implica escolha das palavras, construção das frases, encadeamento das frases, encadeamento de idéias, ritmo, cadência, dosagem de ironia, humor, mau-humor, ou o que mais exista num texto. É necessário não confundir a eminência literária de um autor, isto é, seu estilo ou a forma com que ele escreve, com o que ele está dizendo. E, afinal, o que os autores estão dizendo? Nada de mais, na maior parte das vezes.
Ulisses, de James Joyce, que deixou os críticos de língua inglesa embasbacados, é exercício de estilo. Traduzido para o português (conheço apenas a versão de Antonio Houaiss) vira prosa de adolescente. Claro, um adolescente que tem futuro na carreira literária, ou seja, talentoso, mas ainda assim, adolescente. Ou isso ou Joyce também não sobrevive ao português.
Li mais sobre Ulisses do que me lembro do livro em si. Li sobre a estrutura rigorosa, ou o rigor estrutural (sic) da obra, li sobre a recriação da Odisséia, sobre complexidades e/ou profundezas psicológicas, fluxo dissertativo do inconsciente, etc. Bobagem. Joyce, com o perdão da palavra, era jovem demais, a despeito da idade cronológica. Há uma ingenuidade, comovente, em Joyce. Assim como em Charles Dickens, que a crítica anglo-saxônica insiste que seja ouvido (lido). Mas quem pode ler e levar a sério uma novela mexicana?
Bloom trata, por exemplo, Faulkner, Garcia Marques e mesmo Borges com reserva. Mais ainda esses dois últimos. Os três têm em comum o fato de que não são grandes criadores de personagens. Na verdade eles não se importam muito com isso. O personagem principal de Faulkner é uma espécie de divindade, talvez do tempo, um anjo do destino, que, evidentemente, não está na história mas paira sobre cada linha escrita e força o leitor a enxergar sob seu prisma. Os personagens de Garcia Marques são, praticamente, uma só pessoa. Falam da mesma forma e agem igualmente. Homens e mulheres, somos todos iguais e, de certa forma, isso ajuda no contraste com a fantástica realidade em que vivem, essa sim, sua grande, rica e imprevisível personagem. O personagem de Borges é a própria idéia central do conto, quase sempre surpreendente e complexa. Bloom, admirador radical de Shakespeare, espera sempre encontrar algum Hamlet perdido por aí. Dá a impressão de que não vai desistir dessa busca, ainda que a literatura, como no caso, possa apresentar novos parâmetros.

HAROLD BLOOM - BIOGRAFIA
Assim, após a publicação de Flight To Lucifer: A Gnostic Fantasy (1979), firmou as suas ideias com obras como Agon: Towards A Theory Of Revisionism (1982), The American Religion (1992) e Omens Of Millennium: The Gnosis Of Angels, Dreams And Ressurrection (1996). Em 1994 dirigiu um forte ataque ao multi-culturalismo, aos ideais feministas e ao Marxismo, ao publicar The Western Canon: The Books And School Of The Ages . No ano de 1998 emprendeu uma análise da obra de Shakespeare, com Shakespeare: The Invention Of The Human e, em 2000, publicou How To Read And Why (Como Ler e Porquê ), obra que prenunciava as suas opiniões adversas aos fenómenos juvenis como Harry Potter, que atacou num artigo publicado pouco tempo depois no The Wall Street Journal .
Em 2002 publicou Genius: A Mosaic Of One Hundred Exemplary Creative Minds , estudo em que procurava legitimar a sucessão dos poetas e escritores norte-americanos, fazendo remontar as suas influências a um passado tão longínquo como o da História das Civilizações Clássicas.


Crítico norte-americano, Harold Irving Bloom nasceu a 11 de Julho de 1930, na cidade de Nova Iorque. Após ter terminado os seus estudos secundários, ingressou na Universidade de Cornell, onde se diplomou em Estudos Ingleses em 1951. Transitou então para a reputada Universidade de Yale, onde se doutorou em 1955, sendo convidado para exercer as funções de professor assistente imediatamente a seguir.
Em 1959 publicou o seu primeiro livro, um estudo controverso, mas inovador sobre a obra do poeta inglês Percy Shelley, com o título Shelley's Mythmaking , e que lhe valeu acérrimos antagonismos por parte dos meios académicos norte-americanos.
Os seus estudos sobre o Romantismo inglês continuaram a dar os seus frutos, com a publicação de obras como The Visionary Company: A Reading Of English Romantic Poetry (1961) e Blake's Apocalypse: A Study In Poetic Argument (1963), obras polémicas pelo modo como Bloom analizava a vida dos poetas através de leituras detalhadas das suas obras.
Em 1965, com apenas trinta e cinco anos de idade, tornou-se um dos mais jovens professores catedráticos da Universidade de Yale, gozando de grande prestígio no departamento de Inglês dessa instituição.
Em 1970 publicou Yeats e, no ano seguinte, The Ringers In The Tower: Studies In Romantic Tradition (1971), estudos em que defendia a persistência da imaginação romântica nas obras dos principais poetas vitorianos e modernistas. Bloom acreditava que a arte romântica representava uma antítese da Natureza, por recusar, na sua opinião, as noções de tempo e matéria.
Seguiram-se The Anxiety Of Influence: A Theory Of Poetry (1973, A Angústia da Influência ), A Map Of Misreading (1975), obra em que denunciava o afastamento das humanísticas da literatura, em deterimento da política, Kabbalah And Criticism (1975) e Poetry And Repression: Revisionism From Blake To Stevens (1976).
A partir de 1979 deu início a um novo período no seu pensamento, ao inclinar-se para as doutrinas do gnosticismo.



sábado, 25 de junho de 2011

AUGUSTO DOS ANJOS



SOLITÁRIO

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos

A ESPERANÇA

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Augusto dos Anjos

TREVAS

Haverá, por hipótese, nas geenas
Luz bastante fulmínea que transforme
Dentro da noite cavernosa e enorme
Minhas trevas anímicas serenas?!

Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?!
Não! Porque, na abismal substância informe,
Para convulsionar a alma que dorme
Todas as tempestades são pequenas!

Há de a Terra vibrar na ardência infinda
Do éter em branca luz transubstanciado,
Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo...

A própria Esfinge há de falar-vos ainda
E eu, somente eu, hei de ficar trancado
Na noite aterradora de mim mesmo!

Augusto dos Anjos













 
SONETO
A Frederico Nietzsche

Para que nesta vida o espírito esfalfaste
Em vãs meditações, homem meditabundo?
- Escalpelaste todo o cadáver do mundo
E, por fim, nada achaste... e, por fim, nada achaste!...

A loucura destruiu tudo o que arquitetaste
E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!...
De que te serviu, pois, estudares profundo
O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?

Pois, para penetrar o mistério das lousas,
Foi-te mister sondar a substância das cousas
- Construíste de ilusões um mundo diferente,

Desconheceste Deus no vidro do astrolábio
E quando a Ciência vã te proclamava sábio,
A tua construção quebrou-se de repente!

Augusto dos Anjos (1905, O Commercio).

BIOGRAFIA
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em consequência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os voos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do "Eu" - desde 1919 constantemente reeditado como "Eu e outras poesias" - um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

PAULO LEMINSKI


DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Paulo Leminski



não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

Paulo Leminski











ATRASO PONTUAL

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bênçãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

Paulo Leminski



nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

BIOGRAFIA
Paulo Leminski nasceu em Curitiba em 1945. Poeta de vanguarda, letrista de música popular, escritor, tradutor, professor e, pode parecer inusitado, mas ele também era faixa-preta de judô.
Mestiço de pai polaco com mãe negra, sempre chamou a atenção por sua intelectualidade, cultura e genialidade. Estava sempre à beira de uma explosão e assim produziu muito: é dono de uma extensa e relevante obra.
Sua estreia como escritor foi na Revista Invenção, do grupo concretista de São Paulo em 1964 aos 18 anos de idade. Mas durante as décadas de 60, 70 e 80, ele reuniu em sua volta várias gerações de poetas, escritores e artistas. Sua casa, no bairro do Pilarzinho, virou um local de reuniões informais e até de "peregrinações". Muita gente queria ver Leminski, desde desconhecidos a famosos como Caetano Veloso.
Leminski tinha uma grande preocupação com o conteúdo de sua obra. Por uma questão de temperamento e de busca, Leminski se aventurou na poesia de vanguarda, e alguns tipos de poesia que não têm uma raiz brasileira, como os hai-kais. Mas quando não estava na experimentando, ele fez uma poesia não formalmente metrificada. Era seu objetivo atingir o quadro sócio-político com ironia e, até um pouco de sarcasmo, sem ser panfletário.


Leminski era um boêmio inveterado. Em 1989, por causa de problemas com o álcool, ele acabou falecendo. Mas sua obra continua viva e pulsante. Na Internet, existem várias páginas que abordam o seu trabalho e até grupos de discussão sobre sua obra. Um bom exemplo para saber mais sobre Leminski e ler seus poemas é no endereço www.gratisweb.com/kamiquase.

MÚSICA
Como compositor Leminski teve a música "Verdura" como a primeira a ser gravada. Ela integrou o disco de 1981, Outras Palavras, de Caetano Veloso. Depois vieram outras gravações: "Mudança de Estação", com A Cor do Som; "Valeu", com Paulinho Boca de Cantor, e várias com Moraes Moreira: "Decote Pronunciado", "Pernambuco Meu", "Baile no Meu Coração", "Promessas Demais", que era a música tema da novela Paraíso, da Rede Globo, em 1982. Em 1998, Arnaldo Antunes gravou em seu disco Um Som a música Além Alma. Em 2000, Zeca Baleiro musicou a letra Reza. Vários outros artistas ainda utilizam a obra de Leminski para fazer músicas.

FAMÍLIA
Paulo Leminski se casou, aos 17 anos, com a desenhista e artista plástica Neiva Maria de Souza. Sua segunda mulher foi a Alice Ruiz, com quem ele viveu por 20 anos.
Algum tempo depois de começarem a namorar, Leminski e Alice foram morar com a primeira mulher do poeta e seu namorado, em uma espécie de comunidade hippie. Ficaram lá por mais de um ano e só saíram com a chegada da primeira de três filhos: Estrela. Eles depois tiveram mais uma menina, Áurea, e um menino, Miguel, que morreu com 11 anos.
No ano de 1987, o alcoolismo de Leminski começa a destruí-lo. Alice deu um ultimato e acabaram por se separar.
Leminski passou os últimos meses de sua vida com a cinesta Berenice Mendes. Ela estava grávida de quatro meses, quando Leminski veio, inesperadamente a falecer. Com a morte do poeta, ela acabou perdendo o filho.

BIBLIOGRAFIA
& Catatau (1975).
& Quarenta clics em Curitiba (poesia, com fotos de Jack Pires). Etecetera, Curitiba, 1976.
& Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase. ZAP, Curitiba, 1980.
& Polonaises (poesia). Edição do autor, Curitiba, 1980.
& Cruz e Souza, o negro branco (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1983.
& Caprichos & Relaxos. Brasiliense, São Paulo, 1983.
& Matsuó Bashô, a lágrima do peixe (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1983.
&  Jesus a.C. (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1984.
&  Agora é que são elas. Brasiliense, São Paulo, 1984.
& Um escritor na biblioteca. Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 1985.
& Hai-tropikai (poesia, com Alice Ruiz). Tipografia do Fundo de Ouro Preto, 1985.
& Anseios crípticos. Ed. Criar, Curitiba, 1986.
& Leon Trótski, a paixão segundo a revolução (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1986.
& Distraídos venceremos (poesia). Brasiliense, São Paulo, 1987.
& Guerra dentro da gente (infanto-juvenil). Scipione, São Paulo, 1988.
& Paulo Leminski (reunião de entrevistas e resenhas). Scientia et labor, Curitiba, 1988.
& A lua no cinema (poema ilustrado por Alonso Alvarez). Arte Pau-Brasil, São Paulo, 1989.
& Nossa linguagem (revista Leite Quente, nº1). Fundação Cultural de Curitiba, 1989.
& Memória de vida (homenagem póstuma). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1989.
&  Vida (biografias: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski). Ed. Sulina, Porto Alegre, 1990.
&  La vie en close (poesia). Brasiliense, São Paulo, 1991.
&  Uma carta uma brasa através - Cartas a Régis Bonvicino (correspondência). Iluminuras, São Paulo, 1992.
&  Descartes com lentes (conto, coleção Buquinista). Fundação Cultural de Curitiba, 1993.
&  Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego (ensaio). Iluminuras, São Paulo, 1994.
&  Winterverno (poesia, com desenhos de João Virmond). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994.
&  O ex-estranho (poesia). Iluminuras, São Paulo, 1996.
&  Melhores poemas de Paulo Leminski (poesia). Global, São Paulo, 1996.
&  Ensaios e anseios crípticos (ensaios). Pólo Editorial, Curitiba, 1997.

TRADUÇÕES
&  Pergunte ao pó, John Fante. Brasiliense, São Paulo, 1984.
&  Vida sem fim, Lawrence Ferlinghetti (com outros tradutores). Brasiliense, São Paulo, 1984.
&  Um atrapalho no trabalho, John Lennon. Brasiliense, São Paulo, 1985.
&  Sol e aço, Yukio Mishima. Brasiliense, São Paulo, 1985.
& O supermacho, Alfred Jarry. Brasiliense, São Paulo, 1985.
&  Giacomo Joyce, James Joyce. Brasiliense, São Paulo, 1985.
&  Satyricon, Petrônio. Brasiliense, São Paulo, 1985.
&  Malone morre, Samuel Beckett. Brasiliense, São Paulo, 1986.
&  Fogo e água na terra dos deuses, poesia egípcia antiga. Expressão, São Paulo, 1987.