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domingo, 1 de abril de 2012

ANÁLISE DE O CORTIÇO

Ao ser lançado, em 1890, O Cortiço teve boa recepção da crítica, chegando a obscurecer escritores do nível de Machado de Assis. Isso se deve ao fato de Aluísio de Azevedo estar mais em sintonia com a doutrina naturalista, que gozava de grande prestígio na Europa. O livro é composto de 23 capítulos, que relatam a vida em uma habitação coletiva de pessoas pobres (cortiço) na cidade do Rio de Janeiro.
O romance tornou-se peça-chave para o melhor entendimento do Brasil do século XIX. Evidentemente, como obra literária, ele não pode ser entendido como um documento histórico da época, mas não há como ignorar que a ideologia e as relações sociais representadas de modo fictício nesta obra o que estavam muito presentes no país.

ENREDO O livro narra inicialmente a saga de João Romão rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora os empregados e se utiliza até do furto para conseguir atingir seus objetivos. João Romão é o dono do cortiço, da taverna e da pedreira. Sua amante, Bertoleza, o ajuda de domingo a domingo, trabalhando sem descanso.
Em oposição a João Romão, surge a figura de Miranda, o comerciante bem estabelecido que cria uma disputa acirrada com o taverneiro por uma braça de terra que deseja comprar para aumentar seu quintal. Não havendo consenso, há o rompimento provisório de relações entre os dois.
Com inveja de Miranda, que possui condição social mais elevada, João Romão trabalha ardorosamente e passa por privações para enriquecer mais que seu oponente. Um fato, no entanto, muda a perspectiva do dono do cortiço. Quando Miranda recebe o título de barão, João Romão entende que não basta ganhar dinheiro, é necessário também ostentar uma posição social reconhecida, frequentar ambientes requintados, adquirir roupas finas, ir ao teatro, ler romances, ou seja, participar ativamente da vida burguesa.
No cortiço, paralelamente, estão os moradores de menor ambição financeira. Destacam-se Rita Baiana e Capoeira Firmo, Jerônimo e Piedade. Um exemplo de como o romance procura demonstrar a má influência do meio sobre o homem é o caso do português Jerônimo, que tem uma vida exemplar até cair nas graças da mulata Rita Baiana. Opera-se uma transformação no português trabalhador, que muda todos os seus hábitos.
A relação entre Miranda e João Romão melhora quando o comerciante recebe o título de barão e passa a ter superioridade garantida sobre o oponente. Para imitar as conquistas do rival, João Romão promove várias mudanças na estalagem, que agora ostenta ares aristocráticos. O cortiço todo também muda, perdendo o caráter desorganizado e miserável para se transformar na Vila João Romão.
O dono do cortiço aproxima-se da família de Miranda e pede a mão da filha do comerciante em casamento. Há, no entanto, o empecilho representado por Bertoleza, que, percebendo as manobras de Romão para se livrar dela, exige usufruir os bens acumulados a seu lado.
Para se ver livre da amante, que atrapalha seus planos de ascensão social, Romão a denuncia a seus donos como escrava fugida. Em um gesto de desespero, prestes a ser capturada, Bertoleza comete o suicídio, deixando o caminho livre para o casamento de Romão.

NARRADOR A obra é narrada em terceira pessoa, com narrador onisciente, como propunha o movimento naturalista. O narrador tem poder total na estrutura do romance: entra no pensamento dos personagens, faz julgamentos e tenta comprovar, como se fosse um cientista, as influências do meio, da raça e do momento histórico.
O foco da narração, a princípio, mantém uma aparência de imparcialidade, como se o narrador se apartasse, à semelhança de um deus, do mundo por ele criado. No entanto, isso é ilusório, porque o procedimento de representar a realidade de forma objetiva já configura uma posição ideologicamente tendenciosa.

ANÁLISE DAS PERSONAGENS

RITA BAIANA, Morena, sensual, tem suas próprias regras, não quer se casar, gostava de autonomia.
Perdida, indigna e perigosa por ser mal caminho para filhas de família.
Na obra em pauta, o registro da mulata degradada em um ambiente sexualizado, marginal e desvantajoso socialmente. As transformações históricas que atravessavam a sociedade da época não levaram a novos critérios para a interpretação das relações raciais, a representação social da mulata, sendo negativo ou positivo continua sendo muito estereotipado.
Na análise desta, vale ressaltar seu estereótipo de mulher baiana, sensualidade e rebeldia, características presentes em toda obra sempre que se refere a esta personagem. 
Contrária ao retrato da mulher idealizada romântica, Rita é a mulher independente e rebelde, que diferente de Bertoleza, oprime e seduz os homens, desmoronando a ideia de modelo patriarcal da sociedade em que a mulher era apenas objeto, Rita Baiana criticando até mesmo a instituição casamento vai contra toda uma ordem estabelecida. 
Pode-se, com uma análise mais aprofundada, ver que enquanto Bertoleza aparece no livro como negra, Rita Baiana é mulata, caracterizada como bela, sensual perfeita e perfumada e a negra, retinta, feia, suja e ligada ao lado pejorativo do trabalho.
A sensualidade, como uma característica ligada a uma identidade, é uma propriedade e uma marca da mulata, pois a sexualidade costuma ser uma figura de controle ou dominação, pois a caracterizando como mulata, ela se distancia um pouco da condição de negra, escrava e inferior. Por fim, é pertinente salientar como Rita Baiana é representada fisicamente, essa mulata na obra de Aloísio Azevedo, é marcada por muitos adjetivos, utilizando-se da sinestesia para  descrever as sensações provocadas pela mulata.                       
Azevedo ao exibir o “requebrado luxurioso” de Rita Baiana e “movimentos de cobra amaldiçoada”, sexualiza a personagem que envolve o português Jerônimo. Este se hipnotiza com a mulata, a qual o encanta e o torna brasileiro. Não há casamento, eles se “amigam”, isto é apresentado como uma opção de Rita, ela acredita que o marido escraviza sua esposa.
Casar? Protestou a Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? Livra! Pra quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu!
Percebe-se como ela vulgariza o casamento e como é livre, como anda na própria regra e tem domínio dela mesma e ainda assim consegue extrapolar os limites dos padrões da normalidade da época.
BERTOLEZA era quitandeira, crioula, escrava fugida, quando quase tinha sua alforria é iludida por João Romão.
Negra escrava e mulher na condição total de inferioridade, aos pés de João Romão, no romance aparece sempre como submissa e representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Trabalhava de domingo a domingo, mas de cara alegre; às quatro da madrugada estava já na labuta de todos os dias, aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores da pedreira de João Romão que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda.
Neste trecho, pode-se perceber a condição de escrava em que ela vivia. Ainda é pertinente observar a questão da burguesia que crescia naquela época, onde na obra, João Romão representa a Burguesia e Bertoleza os explorados, afinal Bertoleza dá lucro a João Romão, e trabalha loucamente sem ser recompensada.
JOÃO ROMÃO significa o elemento vitorioso segundo uma seleção das espécies. Ele se modifica, mas ascende na escala social e econômica assumindo os valores tidos como positivos na cultura brasileira.
MIRANDA assumindo sua posição de aristocrata com pequenas variações se mantém e ele atinge o baronato.
JERÔNIMO, depois de atingir o máximo de sua posição de assalariado, envolvido pelos elementos naturais do meio em que passa a viver, entra em decadência e sucumbe sua moral e sua antiga posição. Quando aparece na estalagem de Romão é comparado a um Hércules. A figura mitológica aí não é acidental, mas ganha mais sentido com a fisionomia do personagem depois que entra em decadência. Ele aí chega com ideais de ascensão, pois saíra da roça onde “tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações nem futuro, trabalhando eternamente para outro” (cap. V). Todo esse capítulo é a exaltação das virtudes de Jerônimo como um tipo clássico-mitológico.
POMBINHA E LÉONIE: Pombinha é loira, frágil e delicada. Um tipo diferente entre os negros e mulatos da estalagem. No começo do romance é fraca e doente. Aos 18 anos ainda não menstruara. Tem um noivo, mas sua mãe não lhe permite casar antes que lhe venham as regras. Sua mãe no passado era rica, agora esperava apenas pelo casório da filha para voltar ao seu antigo patamar social.
Pombinha é amiga da rica prostituta Léonie, e só vem a perceber que o interesse desta nela é sexual, no dia em que Léonie lhe cobre de beijos e carícias, envolvendo-a, excitando-a. As duas transam. Depois disso, Pombinha transforma-se, ficando forte e decidida. Casa-se, já sem a antiga ilusão de uma vida perfeita ao lado de um homem. O casamento acaba por não dar certo e ela separa-se, indo morar com Léonie e passando também a se prostituir. Vive aí, o auge de sua felicidade.
DONA ESTELA traía o marido, que por sua vez não se separava dela por querer manter sua postura burguesa perante a sociedade. Neste caso, Azevedo mostra, com fidelidade, a decadência da sociedade que busca viver de aparência ostentando uma condição de vida além de sua dignidade.
O CASAL LEOCÁDIA E BRUNO, este é traído pela esposa Leocádia que não consegue controlar-se diante do belo e rico Henrique. Bruno os flagra, mas não chega a identificar o garoto que é hóspede de Miranda. Bruno expulsa Leocádia de casa e ela tem um filho fruto da traição com o estudante Henrique que nem toma conhecimento. Sem recursos para sobreviver sozinha passa a trabalhar como ama de leite depois, aqui e ali, envolve-se com outros homens, mas acaba sozinha. Bruno dá-se conta de que ama Leocádia e não pode viver sem ela, procura-a e dá início a uma longa reconciliação. Ao final, os dois voltam a viver juntos.
 LEANDRA trabalhava, em tarefa totalmente feminina, era lavadeira apelidada de "a machona" era uma portuguesa feroz, berradora, tinha filhos e achavam que era separada do marido.
FLORINDA e sua MÃE MARCIANA: Florinda engravida de um dos caixeiros de João Romão. O rapaz recusa-se a se casar com ela. A mãe de Florinda não aceita o ocorrido e passa a castigar físico e moralmente a filha com agressões constantes. A garota foge de casa, e isso basta para que Marciana mude de comportamento. Fica frágil, chorando todo o tempo, perde a noção da realidade, e entra em estado de depressão e termina num hospício, onde morre sozinha. Florinda passa por vários amantes até encontrar num deles aparente segurança ao final da história.


 TEMPO
Nesta obra, o tempo é trabalhado de maneira linear, com princípio, meio e desfecho da narrativa. A história se desenrola no Brasil do século XIX, sem precisão de datas, apesar de ser identificado o processo de/e Proclamação da República. Há, no entanto, que ressaltar a relação do tempo com o desenvolvimento d
o cortiço e com o enriquecimento de João Romão.

ESPAÇO
De acordo com alguns gramáticos literários, a noção de espaço deve ser considerada como uma totalidade. Tal divisão deve ser feita segundo alguns princípios, dentre os quais, os elementos do espaço são os que mais se destacam.
Elementos do espaço aqui é compreendido como sendo as personagens, residências, o meio ecológico. No caso da obra em estudo, temos como espaço principal o cortiço, rodeado por espaços menores que seriam seus habitantes, cada um com suas características e particularidades, diretamente afetados pelo espaço central. Os homens, então, são elementos do espaço, seja na qualidade de trabalhadores, visitantes, moradores ou afins. Em o cortiço, pode-se mesmo afirmar que João Romão, além de homem como microespaço, pode ser visto como uma instituição. Na obra alvo desse estudo, percebe-se a nítida diferenciação socioeconômica de alguns personagens centrais. Tal diferenciação não foi feita ao acaso, ela denota a distribuição espacial e aplicação dos personagens junto ao enredo, e em particular, ao espaço.
O espaço social é constituído de tal forma que os personagens são distribuídos nele em função da sua posição nas distribuições estatísticas, seguindo dois princípios de diferenciação, o capital econômico e o simbólico. Na primeira dimensão, os personagens se organizam de acordo com o volume do capital que dominam, na segunda, de acordo com a estrutura do seu capital.
Em acordo com estas abordagens, fica evidente que o protagonista da história é o próprio cortiço, detentor então das classes sociais mais inferiores, e que somadas todas, denotam o organismo vivo que é o próprio cortiço, bem como os casarões e palacetes que completam, de forma personificada, o espaço, representando as classes sociais mais elevadas.

ANÁLISE DE O BOM CRIOULO

ENREDO

Na calmaria do mar, os marinheiros se enfileiravam para ver o castigo que três deles receberiam devido a infrações dentro do navio. Entre eles estava Amaro, o bom crioulo, um negro forte, ex-escravo fugido, metia medo nos companheiros. Entrara pra marinha e se destacava, por muito tempo sonhou navegar e agora ali estava em uma embarcação. Recebeu como punição algumas chibatadas que aguentou com dureza.
Estava sendo punido por brigar com outro companheiro por causa de Aleixo que era um rapazinho do sul, loiro de olhos azuis que deixou Amaro desconcertado quando o viu e o fez protegido, mas sua estima ia além da amizade, desejava Aleixo como homem deseja mulher. No decorrer da viagem os dois criaram laços de amizades e pouco tempo depois se acabara a viagem e os dois desembarcaram no Rio de Janeiro planejando alugarem um quartinho na Rua da Misericórdia onde D. Caroline vivia em um sobradinho a alugar quartos. Ela era conhecida de Amaro por uma vez este ter-lhe salvado a vida. Alugaram um quarto colado ao sótão e ali viveram como dois amantes. Amaro tratava Aleixo como um escravo a satisfazê-lo, mas a afeição existia. D. Carolina brincava que juntos acabariam tendo um filho.
Por certo período, embarcavam e trabalhavam no mesmo navio e juntos voltavam a terra unindo-se em seu quartinho na Rua da Misericórdia e foi assim até que Amaro foi transferido para serviço em outra embarcação daí eles combinaram o dia para que voltassem juntos e se encontrassem no sobradinho de D. Carolina. Mas, no navio de Amaro ele só podia desembarcar uma vez por mês. A boa referência de seu trabalho garantida pela convivência satisfatória que levava na Rua da misericórdia fazia-o mais requisitado.
Um dia Aleixo desembarcou, mas Amaro não se encontrava no quartinho. Como estava sozinho, deitou-se na cama e começou a fumar e a planejar, pela primeira vez, encontrar outro homem, já que era bonitinho, poderia achar outro uma vez que já estava acostumado às relações com o mesmo sexo. Porém D. Carolina desejou possuí-lo. Inicialmente ele mostrava por ela certo pudor, mas ela se insinuava e convidou-o para ir ao quarto dela e foi ali que ele esteve com a primeira mulher de sua vida. Os dois passaram a viver um romance. Aleixo a desejava e a recíproca era verdadeira.
Amaro apareceu e desta vez quem não estava no quartinho foi Aleixo. Amaro vasculhou o quarto em busca de traição e depois saiu à rua, pensando em se ajeitar com alguma mulher e abandonar Aleixo. Acabou se embriagando tornando-se uma fera e consequentemente entrou em uma briga e acabou levado por um capitão à sua embarcação, passou a primeira noite preso e no dia seguinte recebeu o castigo. Foram cento e cinquenta chibatadas, as quais levaram o negro ao hospital.
Aleixo e D. Caroline possuíam-se. Ele queria por tudo esquecer a figura do negro pelo qual nunca sentira nada e de quem guardava até certo rancor. Amaro estava no hospital, sentia-se ali preso, o que lhe torturava devido a sua paixão pela liberdade. Com o decorrer dos dias Aleixo vivia com Caroline e exigia-lhe fidelidade. E Amaro, inválido no hospital, morria de saudade, desejo, ciúme, raiva por Aleixo.
Conseguiu o negro que um bilhete fosse escrito a Aleixo, narrando-lhe onde estava, seu estado e pedindo uma visita. Aleixo não apareceu e, assim, a raiva e o ciúme do negro aumentaram, ele acreditava que o rapazinho arrumara outro homem e sofria e sofria por isso.
Depois de um tempo o bilhete chegou a Rua da Misericórdia, Caroline o rasgou, temia o Bom Crioulo. Nesta noite trancou as portas. Quando Aleixo voltou e teve com a porta trancada encheu-se de desconfiança sobre uma traição. A má situação que se estabeleceu levou Caroline a contar o que a levara a trancar-se. Aleixo cogitou uma visita ao negro, mas ela afirmou que era melhor que não, Amaro acabaria por esquecer-se do rapaz.
Então em um dia de visita, Herculano, ex-companheiro de Amaro nas embarcações, apareceu em visita a um doente. Amaro teve com ele e disfarçado indagou sobre Aleixo. Recebeu de reposta que ele estava metido com oficiais e que saía e entrava quando queria, acreditavam até que tinha uma rapariga.
Depois da partida de Herculano, Amaro planejou sua fuga, pois mais que nunca queria ter com Aleixo, era uma raiva e também um desejo de possuí-lo provocando-lhe dor. Escapou do hospital pulando a janela durante a noite quando chegou ao mar, tomou carona em um barquinho e chegou ao cais de madrugada. Vagou pela cidade, até chegar ao sobradinho da Rua da Misericórdia, que aparentava estar abandonado.
Foi à padaria praticamente em frente e perguntou se Aleixo e D. Caroline ainda moravam ali e o que teve como resposta foi que havia boatos de que se arranjavam juntos e saíam a passeios à noite. Foi nesse ínterim que Aleixo saiu à rua e Bom Crioulo foi ter com ele.
Pegou o rapaz e com fúria chamava-lhe de safado e lhe culpava pelo estado em que se encontrava. Aleixo se acovardou diante da presença e do que o negro lhe dizia. Amaro falava baixo, porém ameaçador, logo o povo se aglomerou em volta dos dois. No fim, D. Caroline saiu à janela e viu descendo a rua o negro Amaro preso pelos guardas por ter assassinado Aleixo a navalhadas e este era carregado do meio da multidão com o corpo mole e ensanguentado.

FOCO NARRATIVO:

O foco narrativo é em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.

PERSONAGENS

AMARO – o Bom-Crioulo: personagem principal, ex-escravo, tem cerca de 30 anos. De início, bom marinheiro, respeitado pela seriedade, força e valentia. Mas aos poucos vai se tornando relaxado, principalmente depois de se apaixonar pelo grumete Aleixo.
ALEIXO – adolescente, tem cerca de 15 anos, veio de família pobre de pescadores. Pele clara, olhos azuis, sua figura cativa a todos. Torna-se objeto das paixões de Amaro e D. Carolina. Morre tragicamente ao final.
Amaro vive integralmente suas contradições, até as últimas consequências, reconhece em Aleixo a causa de sua decadência, mas vai até o fim no seu amor, seus ciúmes no hospital estão em constante contraste com sua saudade carregada de sensualismo, sabe o quanto o álcool lhe faz mal, mas procura-o como último recurso quando já não suporta a realidade.
Sua personalidade, ao longo de todo o romance, é aquela figura enlouquecida e apaixonada que, no último capítulo, caminha com desejo e ódio ao encontro de Aleixo e de seu destino.
D. CAROLINA – portuguesa, ex-prostituta, 38 anos. A princípio, grata a Amaro por este ter lhe salvado a vida no passado, acaba roubando do Bom-Crioulo o grumete Aleixo, que seduz com sua experiência e o resto de sensualidade que lhe sobrou.
HERCULANO – marinheiro imberbe, mórbido, solitário, é castigado ao início da narrativa por ter sido flagrado se masturbando.
SANT’ANA – marinheiro castigado por ter se envolvido em briga com Herculano, manhoso, gago.
AGOSTINHO – guardião do navio, especialista em aplicar chibatadas, é um sádico que se aproveita do seu ofício. Adora castigar.
O reduzido número de personagens significativos na narrativa e a casualidade de alguns acontecimentos soltos na trama parecem denunciar o pouco fôlego de Adolfo Caminha como escritor. Exemplos desses acontecimentos são a “coincidência” da visita de Herculano ao hospital, quando diz a Amaro do destino de Aleixo, e a presença fantasma do açougueiro amante de D. Carolina em algumas passagens do livro.


LINGUAGEM:

É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...


TEMPO

Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, pode-se afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil. Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, fica claro que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo e quando, no dia em que Amaro é chicoteado na velha corveta.

ESPAÇO

O espaço dessa obra pode ser dividindo em externo e interno. Os cenários externos principais são contrastantes, a paisagem marítima é descrita pelo narrador com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de impressionismo, revelando um ambiente deprimente e opresso, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta em alto-mar onde Bom-Crioulo e Aleixo se conhecem e o sobradinho da Rua da Misericórdia onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amariam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam em terra.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo, funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral, o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.

ANÁLISE DE CASA DE PENSÃO

O QUE FOI O NATURALISMO

O Naturalismo compõe o complexo estilístico dos movimentos que acontecem na segunda metade do século XIX, pertinente citar aqui apenas o Realismo e o Naturalismo.
Aparece inicialmente na França, mas suas ideias aos poucos passam a ter adeptos em outros países europeus, nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil.
É uma tendência que, partindo do Realismo, apresenta o homem como produto da raça (hereditariedade), do meio ambiente e do contexto histórico em que está inserido, uma influência das teorias deterministas de Hipólito Adolfo Taine. Além disso, é influenciado pelo estudo da Teoria da Evolução, de Charles Darwin, enfaticamente divulgados na Europa naquele tempo.
O evolucionismo propaga a ideia da origem comum de todos os seres vivos e o processo de seleção natural, ou seja, o predomínio do mais forte sobre o mais fraco. Por esse motivo, acredita-se que só as leis da natureza são válidas para explicar o mundo e que o homem está sujeito a um inevitável condicionamento biológico e social. Assim, determinismo biológico, objetividade científica, patologia social, imparcialidade e materialismo, animalização e erotismo do ser humano são, pois, as bases da visão de mundo do Naturalismo e que constitui suas principais características.


CARACTERÍSTICAS DO ESTILO NATURALISTA

Na estética naturalista, predomina a visão do homem como um ser bestial e degradado, em uma abordagem biológica e instintiva.
A linguagem dos romances naturalistas é coloquial, simples e direta. Para descrever os vícios e as mazelas humanas, presentes em temas relacionados a crimes, à miséria e a intrigas, muitas vezes são utilizadas expressões vulgares. Os personagens representam tipos humanos, como o adultério, o louco, o pobre, a prostituta entre outros, como mostra o fragmento de Casa de Pensão de Aluísio de Azevedo,

Portanto, o Naturalismo reflete ideias, principalmente, do determinismo de Taine e do evolucionismo de Darwin, o que resulta nas características supracitadas que particularizam esta tendência.
Analisando o enredo de CASA DE PENSÃO de Aluísio de Azevedo e de O BOM CRIOULO de Adolfo Caminha, pode-se observar as características do estilo.


CASA DE PENSÃO

ENREDO

A obra foi baseada num fato real que foi a Questão Capistrano, crime que sensibilizou o Rio de Janeiro em 1876/77, envolvendo dois estudantes, em situação muito próxima à da narração de Aluísio Azevedo. Neste livro, o autor estuda as influências da sociedade sobre o indivíduo sem qualquer idealização romântica, retratando rigorosamente a realidade social trazendo para a literatura um Brasil até então ignorada e que a partir do Realismo essa realidade é mostrada.
Autor fiel à tendência naturalista difundida pelo realismo, Aluísio Azevedo focaliza, nesta obra, problemas como preconceitos de classe, de raças, a miséria e as injustiças sociais. Descreve a vida nas pensões “familiares”, onde se hospedavam jovens que vinham do interior para estudar na capital. Diferente do Romantismo, o Naturalismo enfatiza o lado patológico do ser humano, as perversões dos desejos e o comportamento das pessoas influenciado pelo meio em que vivem.
Amâncio da Silva Bastos de Vasconcelos, rapaz rico e provinciano abandona o Maranhão e segue de navio para a corte no Rio de Janeiro a fim de se encaminhar nos estudos e na vida. É um provinciano que sonha com os deslumbramentos da Corte. Chega cheio de ilusões e vazio de propósitos para estudar. Indiferente, como sempre fora com o filho, o pai alegava para a esposa, D. Ângela, que ficara muito chorosa e apreensiva com a viagem do filho, que o rapaz tinha que se tornar um homem.
Amâncio começa morando em casa do sr. Campos, amigo do Pai e, forçado, se matricula na Escola de Medicina. Ia começar agora uma vida livre para compensar o tempo em que viveu escravizado às imposições do pai e do professor, o implacável Pires.
Por convite de João Coqueiro, proprietário de uma casa de pensão, junto com a sua velhusca mulher Mme. Brizard, muda-se para lá. É tratado com as maiores preferências já que queriam aproveitar o máximo do dinheiro do rapaz e ainda arranjar o seu casamento com Amélia, irmã de Coqueiro. Um sujo jogo de baixos interesses, sobretudo de dinheiro. Naquele ambiente, tudo concorreria para fazer explodir a super-sensualidade do maranhense.
A casa de pensão era um amontoado de gente, em promiscuidade generalizada, apesar da hipócrita moralidade pregada pelo seu dono, havia miséria física e moral, clara e oculta. Com a chegada de Amâncio, a pensão passou a arapuca para prender nos seus laços o jovem, “inesperto” e rico estudante, pegar o seu dinheiro e casá-lo com a irmã do Coqueiro. Para alcançar o fim, todos os meios eram absolutamente lícitos. Amélia, principalmente quando da doença do rapaz, se desdobrou nos mais íntimos cuidados. Até que se tornou, disfarçadamente, sua amante. Sempre mantendo as aparências do maior respeito exigido dentro da pensão pelo João Coqueiro...
O pai de Amâncio morre no Maranhão. Ele pretendia voltar, a pedido da mãe para vê-la e ver os negócios que o pai deixara, logo que terminassem os seus exames de medicina. Mas o rapaz ficou preso à casa de pensão e a Amélia que o ameaça e só permite sua ida ao Maranhão, depois do casamento. Amâncio prepara sua viagem às escondidas mas, no dia do embarque, um oficial e justiça acompanhado de policiais o prende para apresentação à delegacia e prestação de depoimentos. Amâncio é acusado de sedutor da moça. João Coqueiro prepara tudo e o caso foi entregue ao famoso e desonesto advogado Dr. Teles de Moura que forja duas testemunhas contra o rapaz. Começa o enredado processo em uma confusão de mentiras, de fingimentos, de maucaratismo contra o jovem rico e desfrutável para os interesses pecuniários de Mme. Brizard e seu marido João Coqueiro. Há uma repercussão geral na imprensa e na maioria dos estudantes carioca que se colocam ao lado de Amâncio. O senhor Campos prepara-se para ajudar o seu protegido, mas Coqueiro lhe faz chegar às mãos uma carta comprometedora que Amâncio escrevera à sua senhora, D. Hortênsia. Este se coloca contra Amâncio uma vez que este não soube respeitar a casa que o acolheu.
Três meses depois de iniciado o processo, Amâncio é absolvido e é levado em triunfo para um almoço, no Hotel Paris.

"Amâncio passava de braço a braço, afagado, beijado, querido, como uma mulher famosa."

AZEVEDO, Aluísio. Casa de Pensão. Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional - Departamento Nacional do Livro. p. 118.

Todo mundo olhava com curiosidade e admiração o estudante absolvido, atiravam-lhe flores, ouviam-se vivas ao estudante e à Liberdade, os músicos alemães tocaram a Marselhesa, parecia um carnaval carioca.
Em outro plano, Coqueiro, sozinho, vendo e ouvindo tudo, a alma envenenada de raiva. Em casa o sermão da mulher que o acusava de todo o fracasso, as testemunhas cobravam o pagamento pelo seu depoimento, um inferno dentro e fora dele. Chegaram cartas anônimas com as maiores ofensas. Acuado, pegou, na gaveta, o revólver que era de seu pai e pensou em se matar. Carregou a arma acertou o cano no ouvido, mas não teve coragem. Debaixo de sua janela, gritavam injúrias pela sua covardia e mau caráter. No dia seguinte, de manhã cedo, saiu apressado e foi ao Hotel Paris. Bateu no quarto II, onde se encontrava o estudante com a rapariga Jeanete. Esta abriu a porta e Coqueiro pode ver Amâncio que dormia sossegadamente depois da festa e da bebedeira, de barriga para cima. Coqueiro atirou a queima-roupa, Amâncio passa a mão no peito, abre os olhos, não vê mais ninguém e ainda diz uma palavra: "mamãe”... e morre.
Coqueiro tentou fugir, mas foi agarrado por um policial. A cidade se enche de comentários. Muitos visitam o necrotério para ver o cadáver de Amâncio. Vendem-se retratos do morto. Um funeral grandioso com a presença de políticos, notícias e necrológicos nos jornais, a cidade toda abalada. A tragédia tomou conta de todos.
A opinião pública começa a flutuar, a mudar de posição, afinal, João Coqueiro tinha lavado a honra da irmã...
Quando D. Ângela, envelhecida e enlutada, chega ao Rio de Janeiro, se viu no meio da confusão, procurando o filho. Numa vitrine, descobriu o retrato do filho "na mesa do necrotério, com o tronco nu, o corpo em sangue.” Uma legenda: "Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro, no Hotel Paris...”

FOCO NARRATIVO

O autor escolheu o seu ponto de vista narrativo, a terceira pessoa do singular, um narrador onisciente e onipotente, fora do elenco dos personagens. Como um observador atento e minucioso dentro das próprias fórmulas apertadas do naturalismo. No caso deste romance, Aluísio Azevedo trabalhou muito servilmente sobre os fatos absolutamente reais.



PERSONAGENS

Como CASA DE PENSÃO foi inspirado na Questão Capistrano, que se encontra nos anexos deste estudo, os personagens, sob nomes fictícios, escondem pessoas reais que viveram a supracitada questão.
Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos - (João Capistrano da Silva) estudante, acusado de sedução. Foi absolvido.
Amélia ou Amelita - (Júlia Pereira) a moça seduzida, pivô da tragédia.
Mme. Brizard - (D. Júlia Clara Pereira, mãe da moça e do rapaz, assassino) é uma viúva, dona da casa de pensão. 
João Coqueiro - Janjão - (Antônio Alexandre Pereira, irmão da moça Júlia Pereira e assassino de João Capistrano. Foi também absolvido).
Dr. Teles de Moura - (Dr. Jansen de Castro Júnior) advogado da família da moça.
Na obra, CASA DE PENSÃO as personagens se constituem como parcela da sociedade e por meio delas são apontados comportamentos condenáveis, os principais são
AMÂNCIO DA SILVA BASTOS E VASCONCELOS é um jovem dissimulado, com traços de complexo de Édipo, que sai do Maranhão para o Rio de Janeiro, na intenção de estudar Medicina. Tem no espírito as marcas da injustiça do mundo e um irreversível talento para se apaixonar por mulheres casadas. Aos 21 anos, acaba de deixar a casa com a figura amorosa de sua mãe e o regulador velho Vasconcelos, e passa a viver em outro núcleo familiar, cuja base são as relações financeiras, de interesse, sem vínculo afetivo. Hospeda-se na casa do senhor Campos, um funcionário público bem posicionado na vida e que muito deve à família de Amâncio. Mesmo que a esposa de Campos, dona Hortênsia, não tenha concordado com a hospedagem, por não confiar em estudantes, ela acaba aceitando. No meio do caminho, porém, ele se muda para a Casa de Pensão de Madame Brizard, e lá se vê uma variedade de moradores que mostra o centro da história - acrescenta ao cenário às teias da promiscuidade, desvios comportamentais, vícios, e toda sorte de jogos de interesses...
Sr. VASCONCELOS é o pai de Amâncio, um português que ainda cultiva um comportamento tradicionalista e austero, cujo objetivo é fazer do filho um “homem”, ou seja, o homossexualismo já é latente na sociedade da época. Percebe-se isso no medo que Vasconcelos tem do filho se tornar efeminado.
D. ÂNGELA é a mãe de Amâncio, uma mulher doce e dedicada, uma “santa”. Fica claro o sentimento materno e a despreocupação com os comportamentos que sociedade possui e a influência que pode desviar o filho.
PROFESSOR ANTÔNIO PIRES foi o primeiro professor de Amâncio, era um homem grosseiro, rigoroso, batia nas crianças por gosto, por um hábito do ofício. Logo percebe-se que a escola já possuía a função de preparar para a vida ignorando os sentimento e priorizando “apenas” a conduta moral.
JOÃO COQUEIRO era estudante da Politécnica, quando conheceu Amâncio, dono da pensão na qual Amâncio foi morar a convite do “amigo”. Coqueiro é quem trama o casamento de Amâncio com a irmã. A partir do comportamento de João Coqueiro percebe-se o jogo de interesses e a falta de escrúpulos da sociedade carioca da época.
MAÉLIA era a irmã de João Coqueiro, era a sedutora e interesseira. Foi quem pôs em prática o plano do irmão e da cunhada.
Mme BRIZARD era esposa de João Coqueiro e cunhada de Amália e se apresenta como gananciosa a ponto de usar a cunhada como objeto negociável. Fica claro que o ser humano vale o que possui, não importando valor moral e sim o material.
RITA BAIANA é uma personagem que aparece no início da obra e reaparece em O Cortiço, em ambos os romances possui comportamento similar. Este fato reitera o comportamento da sociedade carioca da época.

LINGUAGEM

Uma técnica comum ao escritor naturalista é o abuso dos pormenores descritivo-narrativos de tal modo que a história caminha devagar, lerda e até monótona. É a necessidade de juntar detalhes para dar ao leitor uma impressão segura de que tudo é pura realidade. Essas minúcias se estendem a episódios, a personagens e a ambientes. Num episódio, por exemplo, há minúcias de tempo, local e personagens, os móveis de uma sala até os objetos mais miúdos.
Não se pode dizer que a linguagem do romance é regionalista, pelo contrário, o padrão da língua usada é geral e a organização frasal/oracional, a estrutura morfossintática é completamente fiel aos padrões da língua portuguesa da época, segundo a velha gramática portuguesa.
Aluísio Azevedo também usa alguns recursos desconhecidos da língua portuguesa do Brasil, principalmente na língua oral. Assim, por exemplo, o caso da apossínclise "Há anos que me não encontro com o amigo." (Há anos que não me...) "Se me não engano, você está certo.", "Que se não deixasse levar pelos pândegos...","... o que lhe não desejo", "Amâncio já se não lembrava", "... porque ela se não desprendesse logo", "São dessas coisas que se não explicam" e "... hás de ver que te não faltará nada" (104)
Em Casa de Pensão o uso da apossínclise é um hábito comum.

ESPAÇO
Na narrativa CASA DE PENSÃO o espaço assume uma importância preponderante na trajetória do provinciano Amância.sabe-se que em uma narrativa, o espaço pode ser dividido em micro e macroespaço, sendo que aqui macroespaço é entendido como a cdade do Rio de Janeiro e o(s) microespaço(s) compreendido(s) como como os lugares em que amâncio frequentava buscando satisfação para suas necessidades ansiedades e delírios “adolescentes.
Deste modo, cada microespaço contribuiu de forma significativa com o avultamento do comportamento boêmio do personagem e o afastamento de seu maior objetivo que motivou sua ida ao Rio de Janeiro.
Destarte, o ambiente da Casa de Pensão oferecia/contribuía com o declínio tanto de Amância quanto da hipocrisia na/da própria casa assim como da sociedade carioca da época.


QUESTÃO CAPISTRANO


Notório crime passional ocupou as manchetes dos jornais cariocas e foi inspiração para o enredo do romance "Casa de Pensão"
Em janeiro de 1876, a cidade do Rio de Janeiro foi assolada pela notícia de um crime envolvendo dois amigos. A história, que tomou ares de novela ao dividir opiniões, suscitar debates e causar comoção, ficou conhecida como Questão Capistrano, devido ao sobrenome de um dos jovens envolvidos na tragédia.
Pode-se considerar que o caso de polícia, protagonizado pelos inseparáveis amigos João Capistrano da Cunha e Antônio Alexandre Pereira, foi popularizado porque continha todos os ingredientes de uma boa trama: romance, amizade, honra, vingança e assassinato. Assim, a opinião pública envolveu-se nos acontecimentos, dividiu-se em juízos, mas, sobretudo, polemizou.
O tema mereceu destaque na biografia de Aluísio Azevedo escrita por Raimundo de Menezes que, no capítulo "O crime do estudante Capistrano", relata as minúcias do acontecido. Eis como o enredo que inspirou o romance "Casa de Pensão", de Aluísio Azevedo, principia...
A viúva baiana Júlia Clara Pereira, com dificuldades para sustentar as despesas da família somente com a quantia advinda das aulas de piano, delibera alugar outra casa, maior e mais confortável, que lhe possibilitaria alugar alguns quartos e, com isso, prosperar sua renda mensal. Assim, muda-se com os filhos Antônio Alexandre Pereira e Júlia Pereira para a rua do Alcântara, sob o número 71, local em que estabelece uma casa de pensão.
Entre os primeiros pensionistas encontra-se o paranaense João Capistrano da Cunha, colega de Antônio Alexandre na Escola Politécnica, considerado confiável e, portanto, acolhido carinhosamente no seio da família Pereira.
Com o convívio cotidiano, Capistrano e Júlia enlaçam um namoro, no qual a concupiscência leva o desventurado jovem a adentrar o quarto da moça, em uma madrugada de janeiro de 1876, e no ímpeto violentá-la.
Após a filha relatar o acontecido na noite anterior, Dona Júlia exige explicações do estudante que, com pretextos, intenta adiar o matrimônio, compromisso que repararia o dano causado. Feita a promessa, João Capistrano atravessa semanas e meses sem movimentar-se no sentido do cumprimento de sua palavra até que desaparece de vez, sem deixar notícias. Com isso, a família apresenta queixa-crime na delegacia mais próxima, acompanhados do causídico dr. Jansen de Castro Júnior, para pleitear uma indenização de 50 contos pelo prejuízo à honra da menina Júlia.
O julgamento tem início e a imprensa não tarda em estampar seus desdobramentos nas colunas diárias sobre o caso, inflamando a opinião pública a se manifestar ora a favor do casamento reparador dos danos causados ora a favor da imputação de uma severa pena ao jovem sedutor.
No Tribunal, João Capistrano da Cunha tem como defensores os advogados Busch Varela e Duque Estrada Teixeira, além do conselheiro Saldanha Marinho. Figura como promotor público interino o dr. Ferreira de Oliveira, que produz vigorosa acusação. Completando o cenário, tem-se uma agigantada massa popular desejosa de acompanhar os detalhes do julgamento.
Após a contestação do dr. Bush Varela, há a réplica do promotor, seguida pelos dizeres de Duque Estrada Teixeira e Saldanha Marinho. O resultado dos enérgicos debates é a absolvição do jovem Capistrano que, para festejar o veredicto favorável, reúne os amigos no Hotel Paris, em festança exuberante comentada por toda sociedade fluminense.
Para Antônio Alexandre, a irresignável sentença demandaria que ele próprio tomasse uma atitude para restaurar a honra de sua família e, principalmente, de sua irmã, cujo incessante choro denota a vergonha e a profunda prostração. Deste modo, articula por três dias uma possível solução que impusesse ao ex-amigo uma lição.
Assim, o irmão inconformado sai à procura do estudante, encontrando-o à rua da Quitanda, quando caminhava para casa de um negociante. Empunhando uma arma de 25 cápsulas, atira em João Capistrano pelas costas, ceifando-lhe a vida em plena luz do dia. E, após tentar sem sucesso a fuga, é preso em flagrante e entregue à Justiça.
Os alunos da Politécnica, comovidos pelo crime e enlutados, homenageiam o falecido, tornando o enterro praticamente uma glorificação pública. Até o próprio Visconde do Rio Branco, diretor da Escola, suspende as aulas por dois dias.
Pelo assassinato, Antônio Alexandre é levado a julgamento a 20 de janeiro de 1877 e tem a defesa elaborada pelo já conhecido dr. Jansen de Castro Jr. Neste momento, o público que alimentava antipatias pela família Pereira, compadece-se pelo irmão que agiu em defesa da honra. Com isso, o mesmo júri que remiu Capistrano também absolveu seu assassino... por unanimidade de votos! E, por paradoxal que pareça, aqueles que na véspera homenageavam o colega morto foram quem também ovacionaram o amigo que ganhava a liberdade.

JORNAIS DA ÉPOCA

Na Gazeta de Notícias, de 20 de novembro de 1876, lia-se:
"A população de nossa cidade foi ontem sobressaltada por um triste acontecimento, terrível desenlace de um drama, que há pouco, todos presenciamos e que além de duas famílias, veio encher de luto a mocidade acadêmica, roubando-lhe um de seus membros.
(...)
Às dez horas da manhã, na rua da Quitanda, o estudante da escola Politécnica João Capistrano da Cunha, que há três dias o júri absolveu da acusação de ter violentado D. Júlia, foi assassinado com dois tiros de revólver por Alexandre Pereira, irmão de D. Júlia."
Já o conservador Jornal do Comércio, sob o título ASSASSINATO CAPISTRANO, assim mesmo, em caixa alta, estampava em suas páginas do dia 21 de novembro:
"Ontem, logo depois do meio-dia, algumas ruas das mais centrais, e com especialidade a da Quitanda..."
E segue o relato, em linguagem esmerada, que lembra a da ficção, para finalmente fechar o texto informando que os advogados que cuidaram da defesa e absolvição de Capistrano levaram-no ao cemitério:
"Carregaram a princípio o caixão os Srs. conselheiro Saldanha Marinho, Drs. Duque Estrada Teixeira, Busch Varela, Pinto Júnior e os Srs. Matos Cruz e Nunes de Sá. Era na verdade uma cena bem comovente aquele féretro, rodeado de mancebos que, trajados de preto e com a tristeza estampada no rosto iam levar à última morada o companheiro de todos os dias, tanto nas árduas lidas do estudo, como nos descuidosos prazeres da mocidade."

DA REALIDADE À FICÇÃO
Observa-se, portanto, que o crime foi narrado por vários gêneros diferentes, mostrando-se arqueável e apto a transitar na convergente fronteira da realidade jornalística e da ficção literária. Assim, a Questão Capistrano resgata a dicotomia emblemática da fatualidade e da ficção, exemplificada com maestria na trama naturalista de Aluísio Azevedo.

OBS.: Texto acima é a versão original encontrada no link abaixo.


Referências Bibliográficas

Fontes:

SÃO BERNARDO - GRACILIANO RAMOS - RESUMO


PERSONAGENS:
Paulo Honório:  um dos protagonistas da obra é um capitalista tacanho, ou seja, o homem que faz por si mesmo;
Madalena: a outra protagonista delicada e instruída;
Luis Padilha: proprietário do São Bernardo, filho do ex-patrão de Paulo Honório;
D. Gloria: tia de Madalena;
Casemiro: capanga que ajudou Paulo a matar Mendonça, o velho da fazenda ao lado;
João Nogueira: o advogado;
Ribeiro: o guarda-livros;
Silvestre: o padre;
Gondim: o jornalista;

 Abandonado pelo pai, criado por uma negra, a doceira Margarida, Paulo Honório, aos dezoito anos, tem a primeira experiência sexual, de que decorre a primeira violência: esfaqueia João Fagundes, quando este se engraça com Germana, a "cabritinha sarará" que possuiu.
Neste tempo, já pensava em ganhar dinheiro, sendo que trabalhos na enxada até então, dentre outros lugares em São Bernardo, onde permanecera no eito e de que desejava se tornar senhor.
Emprestando dinheiro a juros, negociando no sertão, passando fome e sede, Paulo Honório acumula algum capital e com ele volta à sua terra, município de Viçosa, Alagoas. Aí ficava a fazenda de São Bernardo, cujo novo dono, Luis Padilha - filho do falecido patrão de Paulo, Salustiano Padilha -  é beberrão, mulherengo e incompetente. 
Aproxima-se então de Padilha com o propósito calculado de tirar-lhe a propriedade. Consegue ter êxito fazendo-se seu amigo, emprestando-lhe dinheiro, dando-lhe maus conselhos sobre o cultivo da fazenda. Quando vence a ultima letra que Padilha  devia a Paulo, dirige-se  a São Bernardo (fazenda) e praticamente rouba a propriedade de Padilha, que, arruinado, acaba por vendê-la a preço irrisório.
Com violência e determinação, Paulo Honório, começa a reconstruir a fazenda. Através do Capanga Casemiro Lopes, assassina o velho Mendonça, da propriedade vizinha. Invade os domínios vizinhos, compra maquinas, empresta dinheiro de bancos, comete grandes e pequenas violências, ganha causas no fórum graças a trapaças de João Nogueira, o advogado que o protegia.
Além do capanga e do advogado, Paulo Honório contava com o jornalista Gondim, com o Padre Silvestre e com os políticos da terra, que manejava de acordo com os seus interesses, a fim de vencer. Reconstruída a casa, iniciada a pomicultura, a avicultura, a plantação de algodão, e Paulo Honório resolve-se casar-se.
Conhece Madalena, a professora da Vila, e simpatiza com ela. na mesma determinação, no mesmo pragmatismo com que conseguiu a posse e o progresso de São Bernardo, consegue desposá-la. Madalena muda-se para a fazenda em companhia da tia Glória.
A vida de Paulo Honório modifica-se a partir dai num processo lento, mas fatal de ruína: Madalena, humanitária e esclarecida, interfere em sua rotina de domínio e de exploração. Ajuda os empregados e melhora a situação  da escola que Paulo Honório construíra na fazenda apenas para "agradar"o governador (cujo o  professor era  Luis Padilha, o antigo dono da São Bernardo). Trabalha com o guarda-livros,  o seu Ribeiro, mostrando uma conduta que Paulo considerava inadequada às mulheres: comunista e intelectual. As brigas entre Madalena e Paulo Honório continuam desde o casamento. Isso por causa da generosidade de Madalena e da violência de Paulo Honório.
Madalena não resiste aos maus tratos do marido e suicida-se. Com a sua morte Paulo Honório vai perdendo outras pessoas: D. Glória, seu Ribeiro, o Padilha, e também a obsessão de produzir e ganhar dinheiro.
A revolução de 30 dificulta-lhe os negócios e ele não reage. São Bernardo fenece sob os olhos indiferentes do proprietário, que começa então  a sentir a derrota de sua antiga imponência: a presença de Madalena perseguindo-o, denunciando a coisificação estúpida que imprimiu em tudo de que se aproximou.
Através de lá, a quem a amava, sem conhecer esse sentimento, Paulo Honório compreende o "aleijão" que se tornara. Deformado pela profissão, que o afastou das pessoas e das relações humanas, substituindo-as por relações de posse, de domínio, de poder. Ele reconhece a própria monstruosidade.
Impotente para se transformar, sem ter simpatia pelos infelizes que o rodeiam, inclusive pelo filho de três anos, desconfiado de tudo e de todos, Paulo Honório amarga a solidão e isolamento escrevendo um romance  e buscando, assim , o sentido da sua vida.
Composto por trinta e seis capítulos, este romance combina a objetividade e concisão do enredo com a subjetividade e a emoção revelada nos monólogos. Eles intensificam a dramática da narração, interrompendo-a.
São Bernardo - Graciliano Ramos -
adap. do site: A Literatura Kit.net
 (http://geocities.yahoo.com.br/dariognjr69/resumo/bernardo.html)

  O social e o psicológico se fundem em São Bernardo para criar uma obra de profunda análise das relações humanas. Este é, sem dúvida, um dos romances mais densos da literatura brasileira. Uma das obras-primas de Graciliano, é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva, de guia de cego a proprietário da Fazenda São Bernardo. Ele sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pelas palavras, não só os fatos de sua vida como também a esposa, suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial.  Paulo Honório narra a difícil infância, da qual pouco se lembra excetuando o cego de que foi guia e a preta velha que o acolheu. Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante. Possuidor de fino tato para negócios, viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha - jogador compulsivo. Comprou-lhe a fazenda São Bernardo onde trabalhara anos antes. Astucioso, desonesto, não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que deseja, vê tudo e todos como objetos, cujo único valor é o lucro que deles possa obter.
Trava um embate com o vizinho Mendonça, antigo inimigo dos Padilhas, por demarcação de terra. Mendonça estava avançando suas terras em cima de São Bernardo. Logo depois, Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda. São Bernardo vive um período de progresso. Diversificam-se as criações, invade terras vizinhas, constrói açude e a capela. Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. Chama Padilha para ser professor.
        Estando a fazendo prosperando, Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Idealiza uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a mais perto da sua vontade é Marcela, filha do juiz. Não obstante conhece uma moça loura, da qual já haviam falado dela. Decide por escolher essa. A moça é Madalena, professora da escola normal. Paulo Honório mostra as vantagens do negócio, o casamento, e ela aceita.
        Não muito tempo depois de casado, começam os desentendimentos. Paulo Honório, no início, acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida. Madalena, mulher humanitária e de opinião própria, não concorda com o modo como o marido trata os empregados, explorando-os. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto. Dotada de leve ideal socialista, Madalena representa um entrave na dominação de Honório. O fazendeiro, sentindo que a mulher foge de suas mãos, passa a ter ciúmes mórbidos dela, encerrando-a num círculo de repressões, ofensas e humilhações. O casal tem um filho mas a situação não se altera. Paulo Honório não sente nada pela sua criança, e irrita-se com seus choros. A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando Madalena, levando-a ao suicídio.
        É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. Sua imagem o persegue. As lembranças persistem em seus pensamentos. Então, pouco a pouco, os empregados abandonam São Bernardo. Os amigos já não frequentam mais a casa. Uma queda nos negócios leva a fazenda a ruína. Sozinho, Paulo Honório vê tudo destruído e, na solidão, procura escrever a história da sua vida. Considera-se aleijado, por ter destruído a vida de todos ao seu redor. Reflete a influência do meio quando afirma: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste."
Renato Lima