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domingo, 2 de setembro de 2012

REALISMO E NATURALISMO

Em 1857, no mesmo ano em que no Brasil surgia O guarani, de José de Alencar, na França foi publicado Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura universal.
Em 1867, Émile Zola publica Thérèse Raquin, inaugurando o romance naturalista.
Tem início, assim, uma nova vertente no campo das artes, genericamente denominada Realismo, voltada para a análise da realidade social, em nítida oposição à arte romântica, de gosto burguês.
Na literatura, mais especificamente na prosa, percebem-se duas tendências: o romance realista e o romance naturalista.
LIMITES ENTRE REALISMO E NATURALISMO
É muito comum o emprego dos termos Realismo e Naturalismo associados. Algumas vezes, são termos sinônimos; outras vezes, aparecem como duas estéticas literárias muito próximas uma da outra.
No entanto, existe uma fronteira entre uma coisa e outra: é possível perceber algumas diferenças entre a prosa realista e a naturalista, apesar do grande número de pontos em comum.
Alguns preferem ver o Naturalismo como uma espécie de prolongamento mais forte do Realismo. Sob esse ponto de vista, o Naturalismo seria um Realismo exacerbado. Seria uma forma mais aprofundada de encarar o homem.
Os naturalistas sempre estariam vendo o lado patológico do homem, o seu envolvimento com um destino que ele não consegue modificar; as situações de desequilíbrio muito fortes; o homem que se comporta como um animal, obedecendo a instintos; o homem condicionado ao meio em que vive, subjugado pelo fator da hereditariedade física e patológica, que determina o comportamento dos personagens.

O REALISMO
O Realismo é um movimento literário que surgiu na Europa, na segunda metade do século XIX, influenciado pelas transformações que ali se operavam no âmbito econômico, político, social e científico.
Economicamente, vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material que a burguesia industrial experimentava em virtude das inúmeras invenções Possibilitadas pelas descobertas científicas e tecnológicas.
Apesar dos benefícios trazidos à burguesia, a condição social do proletariado era cada vez pior. Motivados tanto pelas ideias do socialismo utópico, principalmente as de Proudhon e Robert Owen, quanto pelas ideias do socialismo científico, defendidas por Karl Marx e Friedrich Engels, os operários procuram organizar-se politicamente. Fundam então associações trabalhistas e passam a agir melhores condições de trabalho e de vida.
No âmbito científico e cultural, ocorre uma verdadeira efervescência de idéias considerada por alguns como uma segunda etapa do Iluminismo, do século XVIII.
Dentre essas ideias, surgidas como consequência do aparecimento de várias correntes científicas e filosóficas, têm destaque:
Positivismo, de Augusto Comte. para o qual o único conhecimento válido é o conhecimento positivo, ou seja, provindo das ciências;
Determinismo, de Hippolyte Taine, que defende que o comportamento humano é determinado por três fatores: o meio, a raça e o momento histórico;
A lei da seleção natural, de Charles Darwin, segundo a qual a natureza ou o meio selecionam entre os seres vivos as variações que estão destinadas a sobreviver e a perpetuar-se, sendo eliminados os mais fracos.
Enquanto no domínio da Física, da Química, da Biologia e da Medicina ocorrem avanços significativos, são lançados os fundamentos de três novas disciplinas: a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia.
Os escritores, diante desse quadro de mudança de idéias e da sociedade, sentem a necessidade de criar uma literatura sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que até então vinha fazendo o Romantismo.
As descobertas científicas, as idéias de reformas políticas e de revolução social exigiam dos escritores, por um lado, uma literatura de ação, comprometida com a crítica e a reforma da sociedade, e de outro, uma abordagem mais profunda e completa do ser humano, visto agora à luz dos conhecimentos das correntes científico-filosóficas da época.
Aparece então o Realismo, que procura, na literatura, atender às necessidades impostas pelo novo contexto histórico-cultural. Suas atitudes mais freqüentes são o combate a toda forma romântica e idealizada de ver a realidade; a crítica à sociedade burguesa e à falsidade de seus valores e instituições (Estado, Igreja, casamento, família); o embasamento no materialismo, o emprego de idéias científicas; a introspecção psicológica das personagens; as descrições objetivas e minuciosas; a lentidão na narrativa; a universalização de conceitos.
Ao lado do Realismo, surgem ainda as correntes literárias denominadas Naturalismo e Parnasianismo, de pequena penetração em Portugal. A primeira, que consiste na verdade em uma forma extremada de Realismo, procura "provar" com romances de tese as teorias científicas da época, particularmente o determinismo. O Parnasianismo por sua vez é uma corrente que combate os exageros de sentimento e de imaginação do Romantismo e tenta resgatar certos princípios clássicos de procedimento, como a busca do equilíbrio, da perfeição formal e o emprego da razão e da objetividade.
Os três movimentos tiveram ciclo na França, com a publicação do romance realista Madame Bovary (l857), de Gustave Flaubert; do romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola (l867), e das antologias parnasianas Parnasse contemporain (a partir de 1866).
O Realismo em Portugal
Como marco introdutório do Realismo em Portugal tem sido apontada a Questão Coimbrã, episódio ocorrido em 1865.
Nessa época haviam finalmente cessado as lutas entre os liberais e as facções que representavam a velha monarquia deposta pela revolução de 1820.
Consolidado o liberalismo, Portugal conheceu a partir de 1850 um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Coimbra, importante centro cultural e universitário da época, ligava-se em 1864 diretamente à comunidade européia por meio da estrada de ferro.
Contudo, do ponto de vista literário, predominavam ainda velhas idéias, românticas e árcades.

A QUESTÃO COIMBRÃ
Os meios literários já há alguns anos tinham como principal expressão o consagrado Castilho, poeta árcade, idoso e cego. Representante do academismo e do tradicionalismo literários, Castilho reunia em torno de si jovens escritores a quem protegia e por quem era tido como mestre.
A Questão Coimbrã tem início quando Castilho, ao escrever um posfácio elogioso ao livro Poema da mocidade de seu protegido Pinheiro Chagas, aproveita para criticar um grupo de poetas de Coimbra, a quem acusa de exibicionismo e obscuridade. São citados no posfácio os escritores Teófilo Braga, Vieira de Castro e Antero de Quental, que acabara de publicar a obra Odes modernas.
Antero de Quental responde a Castilho com uma carta aberta, em forma de panfleto, intitulada "Bom senso e bom gosto". Nela Antero critica o apadrinhamento literário, praticado por Castilho, e a censura da livre expressão.
Para Antero, a agressão sofrida não se limitava ao plano estritamente literário ou pessoal; era, na verdade, uma reação do velho contra o novo, do conservadorismo contra o progresso, da literatura de salão contra a literatura viva e atuante exigida pelos novos tempos.
Os grandes homens, na concepção de Antero, seriam aqueles comprometidos com a nova "Idéia", ou seja, com os conhecimentos trazidos pelas correntes filosóficas e científicas da época e que seriam capazes de modernizar Portugal, colocando-o ao lado das nações européias mais desenvolvidas.
A Questão Coimbrã durou todo o segundo semestre de 1865, com publicações em defesa e ataque de ambos os lados. Participaram dela também, dentre outros, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão e Pinheiro Chagas. Eça de Queirós, embora fizesse parte do grupo coimbrão, não interveio na polêmica.

AS CONFERÊNCIAS DO CASSINO LISBONENSE E A GERAÇÃO DE 70
Por volta de 1870 e tendo já concluído os estudos universitários em Coimbra, o grupo de amigos se reencontra em Lisboa e passa a travar debates acerca da renovação cultural portuguesa. A volta de Antero de Quental - que estivera na França, na América e na ilha de São Miguel - dinamiza essas reuniões, que passam a contar com leituras sistematizadas (principalmente de Proudhon) e a ter um objetivo definido. Como resultado desse esforço, nasce a iniciativa ambiciosa das Conferências Democráticas, que visavam à reforma da sociedade portuguesa.
Eis algumas das propostas das conferências, impressas no programa, assinado dentre outros por Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga:
Abrir uma tribuna onde tenham voz as idéias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos; ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa; agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna; estudar as condições da transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa.
Depois de proferidas cinco conferências - das quais duas eram de Antero e uma de Eça de Queirós -, o governo proíbe a continuidade do ciclo, alegando que os oradores suscitavam "doutrinas e proposições que atacavam a religião e as instituições do Estado".
Mas, apesar da censura, o Realismo já era vitorioso em Portugal e a partir de então se colheriam seus melhores frutos.
A poesia da época, a que genericamente se chama realista, alcançou grande prestígio e se desdobrou em quatro direções:
A poesia realista propriamente dita, representada por Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Teófilo Braga e outros, que se caracteriza pela crítica social e pelo engajamento político;
A poesia do cotidiano, representada por Cesário Verde, que, parcialmente ligada à poesia realista, procura incorporar à poesia certos aspectos da realidade até então considerados pouco poéticos;
A poesia metafísica, representada por Antero de Quental, que se volta para as indagações em torno da vida, da morte e de Deus;
A poesia parnasiana, representada por João da Penha e outros, cuja preocupação central é resgatar a tradição clássica, deixada de lado pelo Romantismo.
A prosa de ficção, na qual sobressaem Eça de Queiróz, Fialho de Almeida e Abel Botelho, segue a mesma orientação da poesia realista, porém dividindo-se entre o ataque à burguesia, à monarquia, ao clero, às instituições sociais, aos falsos valores e o compromisso com a doutrinação moral, social e filosófica.
Merecem destaque ainda a historiografia de Oliveira Martins e a crítica literária de Teófilo Braga.

O REALISMO NO BRASIL
O Realismo no Brasil tem como marco a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em 1881.
A passagem do Romantismo para o Realismo acompanha um período de muitas mudanças na história econômica, política e social brasileira.
O Brasil da década de 80, quando se instala o novo movimento literário, não é mais o mesmo de 1850, época em que a segunda geração romântica dividia seus versos entre o amor e a morte, e as "moreninhas" circulavam pelos salões.
O Realismo vai encontrar terreno adubado para florescer, depois de o país ter passado, ao longo de quarenta anos, por fatos importantes que foram alterando aos poucos sua feição atrasada e tacanha. Como exemplo, a Guerra do Paraguai (1864-1870), o crescimento da campanha abolicionista, o enfraquecimento do governo de D. Pedro II, a intensificação das idéias republicanas, a força da economia agrária, que concentrava a renda nas mãos de fazendeiros de açúcar, primeiro, e de café, depois.
A década de 80 será muito agitada: as campanhas abolicionistas e republicanas andam juntas, em comícios, movimentos e passeatas, na maioria de estudantes e intelectuais.
A escravidão e o Império caem quase ao mesmo tempo: em 1888 veio a Abolição; em 1889 Deodoro da Fonseca proclamou a República. Esses dois fatos criaram uma nova realidade, ao eliminar o trabalho servil e introduzir o princípio do voto na eleição dos governos, constituindo um índice de que se iniciava o processo de modernização da economia e política nacionais.
Paralelamente, dinamiza-se a vida social e cultural (principalmente no Rio de Janeiro), como sempre soprada por ventos europeus: liberalismo, socialismo, positivismo, cientificismo, etc. Idéias já consolidadas lá fora e importadas por nós, no mais das vezes sem a necessária adaptação. Numa sociedade agrária, escravocrata e preconceituosa, sem indústrias, sem classe operaria, elas surgiam deslocadas, fora de lugar.
A literatura realista e naturalista brasileira passa a refletir essas idéias, no interior da realidade específica do nosso país, através da pena de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Adolfo Caminha; Olavo Bilac brilha com a poesia parnasiana; Raul Pompéia ensaia sua prosa intimista.
Mudava a literatura porque mudava o país. Aumenta o número de estradas de ferro, incrementa-se o transporte urbano, surge a iluminação elétrica e o cinema.
Nas cidades, aumentam a classe comercial, o funcionalismo, os militares e os trabalhadores livres, já em grande parte imigrantes. Nas ruas ainda estreitas e sujas proliferam os salões elegantes, as confeitarias e as lojas que copiavam a moda de Paris.

O NATURALISMO
Já sabemos que Realismo e Naturalismo têm, entre si, semelhanças e diferenças.
Se o primeiro procura retratar o homem interagindo no seu meio social, o segundo vai mais longe: pretende mostrar o homem como produto de um conjunto de forças "naturais", instintivas, que, em determinado meio, raça e momento, pode gerar comportamentos e situações específicas.
Nas obras de alguns escritores realistas podemos distinguir certas características que definem uma tendência chamada Naturalismo.
O Naturalismo enfatiza o aspecto materialista da existência humana. Para os escritores naturalistas, influenciados pelas teorias da ciências experimentais da época, o homem era um simples produto biológico cujo comportamento resultava da pressão do ambiente social e da hereditariedade psicofisiológica. Nesse sentido, dadas certas circunstâncias, o homem teria as mesma reações, instintivas e incontroláveis. Caberia a escritor, portanto, armar em sua obra uma certa situação experimental e agir como um cientista em seu laboratório, descrevendo as reações sem nenhuma interferência de ordem pessoal ou moral.
No romance experimental naturalista, o indivíduo é mero produto da hereditariedade. Ao lado desta, o ambiente em que vive, e sobre o qual também age, determina seu comportamento pessoal.
Assim, predomina o elemento fisiológico, natural, instintivo: erotismo, agressividade e violência são os componentes básicos da personalidade humana, que, privada do seu arbítrio, vive à mercê de forças incontroláveis.
Desse modo, o Naturalismo atribui a um destino inescapável, de origem fisiológica, aquilo que, na verdade, é produto do sistema econômico-social: a retificação do homem, ou seja, a sua transformação em coisa (do latim res = coisa).
Para dar vida a toda essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes, impassíveis, podendo ver tudo por todos os ângulos. As descrições são precisas e minuciosas, frias e fidelíssimas aos aspectos exteriores.
As personagens são vistas de fora para dentro, como casos a estudar: não há aprofundamento psicológico; o que interessa são as ações exteriores, e não os meandros da consciência à maneira de, por exemplo, Machado de Assis.

O ROMANCE NATURALISTA
O naturalismo foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. O caso de Raul Pompéia é muito particular, pois em seu romance O Ateneu tanto apresenta características naturalistas como realistas, e mesmo impressionistas.
A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando-se o coletivo.
Interessa notar que a preocupação com o coletivo já está explicitada no próprio título dos principais romances: O Cortiço, Casa de pensão, O Ateneu.
É tradicional a tese de que, em O Cortiço, o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas sim o próprio cortiço.
Por outro lado, o naturalismo apresenta romances experimentais preocupados em formular regras, em conseqüência de seu caráter cientifista. A influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista, que enfatiza a natureza animal do homem (portanto, no embate instinto versus razão, o homem, como todo animal, é dominado num primeiro momento pelas reações instintivas particularmente no comportamento sexual, que a falsa moral burguesa não é capaz de reprimir). Os textos naturalistas acabam por tocar em tema até então proibidos, como o homossexualismo, tanto masculino, como em O Ateneu, quanto feminino, em O Cortiço.
No Brasil, a prosa naturalista foi muito influenciada por Eça de Queirós, basicamente com as obras O crime do Padre Amaro e O primo Basílio.
Em 1881 surge o romance considerado o marco inicial do Naturalismo brasileiro: O mulato, de Aluísio de Azevedo.
Pertencem também ao Naturalismo brasileiro, entre outros, O missionário, de Inglês de Souza, e A carne, de Júlio Ribeiro, ambos publicados em 1888. Adolfo Caminha publicou A normalista (1893) e O bom crioulo (1896), considerados boas realizações naturalistas.

CARACTERÍSTICAS DO REALISMO-NATURALISMO
COMPROMISSO COM A REALIDADE
O Realismo-Naturalismo é contra o tradicionalismo romântico.
Trata-se de uma arte engajada: ela tem compromisso com o seu momento presente e com a observação do mundo objetivo e exato.

PRESENÇA DO COTIDIANO
Os escritores realistas-naturalistas consideram possível representar artisticamente os problemas concretos de seu tempo, sem preconceito ou convenção. E renovaram a arte ao focalizarem o cotidiano, desprezado pelas correntes estéticas anteriores.
Daí que os personagens de romances realistas-naturalistas estejam muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas do dia-a-dia, com suas vidas medianas, cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas ou científicas.
A linguagem é outra preocupação importante: ela deve se aproximar do texto informativo, ser simples, utilizar-se de imagens denotativas, e as construções sintáticas devem obedecer à ordem direta.

PERSONAGENS TIPIFICADOS
Os personagens de romances realistas-naturalistas são retirados da vida diária e são sempre representativos de uma categoria - seja a um empregado, seja um patrão; seja um proprietário, seja um subalterno; seja um senhor, seja um escravo, e daí por diante.
Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere: isto é, embora os personagens sejam seres ficcionais, individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade.

PREFERÊNCIA PELO PRESENTE
Geralmente os escritores realistas-naturalistas deram preferência ao momento presente: as narrativas estavam ambientadas num tempo contemporâneo ao do escritor.
Com isso, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denunciadora do que havia de mau na sociedade.
Outro aspecto dessa preferência pelo momento presente é o detalhismo com que é enfocada a realidade, fato explicável pela proximidade.

PREFERÊNCIA PELA NARRAÇÃO
Ao contrário dos românticos, que privilegiaram a descrição, os realistas-naturalistas deram ênfase à narração do fato: o que acontece e por que acontece são as preocupações desses escritores.
Anticlericais, antimonárquicos, antiburgueses
Os realistas-naturalistas são marcadamente contra a Igreja, que apontam como defensora de ideologias ultrapassadas, como, por exemplo, a monarquia. Também criticam acirradamente a burguesia, que encarna o status romântico em geral.


NATURALISMO
O termo Naturalismo normalmente refere-se a trabalhos de arte baseados na observação dos objetos que representam e não em estilizações ou conceitos pré-forjados a respeito dos mesmos.
Em seu sentido mais amplo, seria a aproximação máxima realizada pelo artista entre a obra e a natureza daquilo que pretendia ser representado.
Entretanto, uma obra em que não pode ser observada uma rígida preocupação em descrever algo com o máximo de detalhes verossímeis, ainda assim, em alguns casos, pode ser considerada naturalística, se apresentar coerência com o aspecto geral.
Os gregos são os primeiros a receberem a denominação de naturalistas na História da Arte, principalmente devido a sua produção do Período Clássico.
Apesar da idealização de uma beleza física, conhecida como padrão de beleza clássico, suas obras são baseadas no estudo e na observação das estruturas do corpo humano. A idealização, portanto, não aparece aqui como antônimo de naturalismo.
Os renascentistas italianos também são conhecidos pelo naturalismo em suas obras, uma vez que esse era um dos padrões estéticos da arte grega que pretendiam resgatar.
Além disso, costuma-se usar a expressão arte naturalista em oposição à arte abstrata, ou como sinônimo de realismo (note-se que realismo, quando em letra maiúscula, refere-se a uma escola presente na História da Arte e nesse sentido, não é correto o uso indistinto dos dois termos).
Pode ainda referir-se a uma escola pictórica determinada. Nesse caso é designada para nomear os caravaggistas, artistas bastante influenciados pelo estilo do italiano Caravaggio, que fazia questão de ressaltar em suas obras a verossimilhança, independente de um resultado final agradável.
CARAVAGGIO (Michelangelo [Miguel Ângelo] AMERIGHI, ou MERISI, dito), pintor italiano (Caravaggio, 1573 - Porto Ercole, 1610). Dramatizou o realismo de sua visão, recorrendo a poderosos contrastes de sombra e de luz. Sua influência foi considerável.
O crítico de arte e colecionador italiano Giovanni Pietro Bellori (1615 - 1696), conhecido por seus estudos do período barroco, foi o primeiro a utilizar-se desse termo pretendendo designar essa escola.

NATURALISMO
A literatura incorpora habitualmente muitos escritos cuja finalidade primeira não é exatamente literária, mas que, pelas características textuais de sua composição ou segundo os cânones de apreciação estética de cada época, são considerados mais ou menos próximos da elaboração especificamente literária. Os textos com estas características são os escritos de doutrinação vária, podendo o ensaio e a crítica confundir-se com eles. Podemos denominá-los doutrinários, na conceituação de Carlos Reis, pois contemplam testemunhos de escritores que, quase sempre imersos no fluxo da produção literária a que se referem, procuram estabelecer e propor orientações para essa produção literária e mesmo, nalguns casos, para a do futuro; [...] revestem-se de um pendor programático, no sentido de que, freqüentemente, sugerem, de forma expressa ou velada, uma acção a cumprir, não raro por um grupo ou por uma geração [...]; apresentam [...] registro ensaístico ou similar [...]; não se propõem a enunciar o discurso da teoria [...] e [...] apresentam uma certa experiência literária e cultural mais ou menos sedimentada, provinda da actividade criativa propriamente dita” 1 .
Fica evidente, portanto, o caráter metaliterário desses textos doutrinários, na medida em que eles intervêm no processo da evolução literária, por meio de reflexões acerca de diversos aspectos da literatura. Esta espécie de texto proliferadurante o Romantismo, não apenas com Almeida Garrett e Alexandre Herculano, mas, em especial, com a chamada “Geração de 70”, constituída por um grupo de intelectuais portugueses (Eça de Queirós, Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins) que, na sua maioria, aliam a produção literária e textos de aspecto doutrinário, quando não se notabilizam, justamente, neste gênero de reflexão.
Na fortuna literária e crítica de Eça de Queirós, encontram-se estudos acerca das suas idéias literárias, embora, até hoje, estas tenham sido colocadas em plano secundário às idéias de cunho político, sociológico ou filosófico. Neste artigo, nosso objetivo é fazer o comentário de alguns textos de Eça de Queirós que enquadramos nas espécies doutrinárias: cartas, prefácios, artigos de jornal e de revista. Estes textos, tendo sido objeto da atenção de Eça para reflexões feitas em torno da sua própria produção literária, constituem-se, portanto, em mais um instrumento no qual podemos nos apoiar, para a interpretação de seus textos de ficção e para a elucidação de questões de época referentes às tendências literárias em voga no último quartel do século XIX em Portugal. Em suma, nosso propósito é projetar luz ao pensamento doutrinário de Eça de Queirós, à sua teoria literária, ao seu ideário estético, principalmente naquilo que diz respeito ao seu compromisso com a estética realistanaturalista e que possibilita uma interpretação mais lúcida e mais adequada de sua obra ficcional. No início do período realista-naturalista português, nas conhecidas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, realizadas em Lisboa, em maio-junho de 1871, foram dadas a público algumas idéias de um grupo de jovens, liderados intelectualmente por Antero de Quental: a Geração de 70. É sabido que da quarta conferência, proferida por Eça de Queirós e intitulada “A literatura nova ou o realismo como nova forma de arte”, não há texto escrito, apenas as reportagens de alguns jornalistas presentes, vindos dos jornais A Revolução de Setembro, Diário de Notícias, A Noite, A Nação e Bem Público.
Tomando como fonte alguns desses textos de jornais, António Salgado Júnior coletou-os e comentou-os em História das conferências do Casino (1871), publicado em 1930 e, até hoje, sem nenhuma reedição. Portanto, nada mais oportuno e necessário do que conhecer o conteúdo programático, as idéias acerca do Realismo-Naturalismo, por meio dos próprios escritos de Eça de Queirós, basicamente agrupados na edição de Beatriz Berrini para sua Obra Completa, na antologia de A. C. Matos e nos estudos do professor Carlos Reis.
Nossa abordagem percorre, cronologicamente, alguns textos nos quais Eça de Queirós teoriza sobre o Realismo-Naturalismo, incluindo artigos polêmicos. Como diz Pinheiro Chagas, um de seus contendores: “Eu sou um dos mais ferventes admiradores de Eça de Queiroz; detesto as suas teorias literárias, mas adoro os seus romances, que felizmente só em algumas páginas se conformam com suas teorias” 2 . Um dos vários gêneros do discurso utilizado por Eça para explicar e informar a seu leitor acerca do seu método de composição literária e de suas intenções é a carta. Em “Uma carta”, publicada no jornal português A Gazeta de Portugal em 3 de novembro de 1867 e recolhida postumamente no volume Prosas Bárbaras (1903) com uma introdução de Jaime Batalha Reis, dirige-se a um dos Vencidos da Vida, seu amigo Carlos Mayer. Nesse texto, Eça rememora os tempos de ambos como estudantes de Direito na Universidade de Coimbra (1862-1866) e, aí, encontramos uma espécie de “plataforma literária” dessa fase de iniciação: “Naqueles tempos [...] o Romantismo estava em nossas almas. Fazíamos devotadamente oração diante do busto de Shakespeare” 3 . Nada pode ser mais romântico do que esse comportamento! Quem eram eles? “Havia entre nós todas as teorias e todas as seitas: havia republicanos bárbaros e republicanos poéticos; havia místicos que praticavam as éclogas de Virgílio; havia materialistas sentimentais e melancólicos” 4 .
Eça de Queirós, nesse tempo, pretendia o romantismo livre das tendências neoclássicas e ainda não contaminado pelas teses positivistas e cientificistas quecomeçavam a ser difundidas depois da Questão Coimbrã (1865- 1866). Afirma ele: Na arte só têm importância os que criam almas e não os que reproduzem costumes. A arte é a história da alma. Queremos ver o homem: não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade – mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões [...] É aí que se pode estudar o homem. É o que faz também a grandeza de certos tipos capitais de Balzac, o Barão Hulot, Goriot, Grandet. Realizam o seu destino, longe da associação humana, sob livre lógica das paixões. 5 Esse foi um dos últimos folhetins escritos para a Gazeta de Portugal e nele parece querer justificar o tom fantástico que empregou nos textos que publicara nessa época: “Quais podem ser as obras desta geração? Criações febris, convulsões cerebrais, idealistas e doentias, todo um pesadelo moral” 6 . Ainda utilizando-se do mesmo gênero de discurso, em uma carta enviada a Teófilo Braga em 12 de março de 1878, expõe seu novo ponto de vista ideológico, a concepção realista de arte, adotado em O Primo Basílio : “Eu não ataco a família – ataco a família lisboeta – a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem e, mais tarde ou mais cedo, centro de bambochata” 7 . Eça começava a estruturar o ideário realista e o coloca em prática neste romance. O seu alvo é a burguesinha da Baixa, “sentimental, mal educada [...] arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular”. O ataque à burguesinha estende-se a todo o pano de fundo social, o meio, do qual falavam Taine e Zola. É muito instrutiva a comparação entre a teoria e a prática naturalista. Pode mostrar-nos que, contrariamente às expectativas, o Realismo era desejado e, de certo modo, alcançou ser mais radical do que o Naturalismo. Eça faz crítica a seu processo de composição, reconhecendo uma superabundância de detalhes: “O essencial é dar a nota justa[...].
Pobre de mim – nunca poderei dar a sublime nota da realidade transitória, como o divino Balzac – ou a nota justa da realidade transitória, como o grande Flaubert!” 8 . Ao eleger Balzac e Flaubert como seus mestres, propunha o Realismo propriamente dito e recusava o Naturalismo, mesmo porque este ainda estava longe de se instalar com toda a iconoclastia em Portugal. Os preceitos realistas se reafirmam em uma outra carta enviada a Rodrigues de Freitas, em 30 de abril de 1878: Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. [...] Uma arte que tem esse fim – não é uma arte à Feuillet ou à Sandeau. É um auxiliar poderoso da ciência revolucionária.
Em 1879, um texto que foi aproveitado parcialmente para prefácio da segunda edição de O crime do Padre Amaro e, mais tarde, integrado ao volume póstumo de Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, sob o título “Crítica e Polêmica” e sub-título “Idealismo e Realismo”, é uma explanação impressiva e exaustiva acerca do RealismoNaturalismo. Segundo Carlos Reis 10 , esse texto, datado de 1879, foi publicado, em parte, em 1880, como “Nota da segunda edição” (terceira versão). Em 1929, o referido texto foi publicado integralmente pelo filho de Eça, José Maria d’Eça de Queirós, no volume Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas. O manuscrito desse texto encontra-se no Espólio de Eça de Queirós, na Biblioteca Nacional de Lisboa. O título “Idealismo e Realismo” foi atribuído pelo primeiro editor.
Carlos Reis confrontou o texto citado (edição da Lello & Irmão,1965) com o manuscrito autógrafo e afirma que o texto publicado pelo filho de Eça está diferente do texto manuscrito, “está longe de ser fiel ao original”. Esse texto foi escrito em resposta à crítica de Machado de Assis a O primo Basílio e a O crime do Padre Amaro, mas Eça deixou-o inédito, aproveitando dele apenas umas duas páginas, por volta de 20% do texto integral, para integrar o prefácio, no qual trata, dentre outras questões, da acusação feita por Machado ao plágio realizado por Eça das obras La faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola, e de Eugénie Grandet, de Balzac. Eça respeitava Machado de Assis e suas críticas, pelo que se depreende de uma carta de Eça a Machado, datada de 29 de junho de 1878 e endereçada ao Consulado de Portugal, mas não enviada ao destinatário. Ao deixar este texto inédito, sua funcionalidade falhou, lembra Carlos Reis, no que concerne à sua configuração programática, doutrinária, pois “cancelou a premência afirmativa que lhe era inerente” 11 . Eça chega a dizer que não sabe o que é o Realismo e a idéia nova, elevados em Portugal a uma espécie institucional da qual ele seria um dos chefes: Eu sou associado a estes dois movimentos, e se ainda ignoro o que seja idéia nova, sei pouco mais ou menos o que chamam aí a escola realista. Creio que em Portugal e no Brasil se chama Realismo, termo já velho em 1840, ao movimento artístico que em França e em Inglaterra é conhecido por “Naturalismo” ou “arte experimental”. Aceitemos, porém realismo, como a alcunha familiar e amiga pela qual o Brasil e Portugal conhecem uma certa fase na evolução da arte 12 .
Em um determinado trecho, Eça toma os termos Realismo e Naturalismo como sinônimos e diz que “na realidade o Naturalismo nem foi inventado pelo Senhor Zola, nem consiste em descrever obscenidades, nem tem retórica própria, nem sobretudo é uma escola” 13 . Afirma o escritor: Agora , temos a escola realista!
Não – perdoem-me – não – há escolas realistas. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõeuma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o Naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento de sua evolução [...] Dizer “escola realista” é tão grotesco como dizer “escola republicana”. O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república a forma que toma a democracia [...]. Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade.
O texto, que fala por si, dispensa outros comentários e mostra Eça convicto do Naturalismo (e não do Realismo), pois, ao fazer uma oposição afirma que o idealista dá uma falsificação, ao passo que o naturalista dá uma verificação: “Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica” 15 . É evidente nesse texto a sistematização feita por Eça acerca do Naturalismo, na medida em que procura encará-lo como método, explicitando os procedimentos fundamentais: “O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, [...] como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia” 16 . Declara ainda: “ Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos fatos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” 17 . Nesse texto, ainda atentando para o título “Idealismo e Realismo”, verifica-se imediatamente a oposição entre real e não-real, prestando-se essa quase antítese à programática do Romantismo versus Naturalismo, utilizando-se a comparação com o pintor naturalista e o idealista. Para completar sua teoria programática sobre o Naturalismo demonstra as respectivas opções de gênero: “Outrora uma novela romântica, em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social.
Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje analisa-se, a posteriori, por processos tão exatos como osda própria fisiologia” 18 . A noção de que a criação literária não devia isolar-se do que a rodeava, mas partir desse envolvimento, patenteia-se com toda a nitidez, quando está em causa a ligação entre literatura e sociedade. Lembremos que, em primeiro lugar, este é um problema particularmente premente, em especial na época em que estão ainda vivos os desígnios de transformação e renovação sociocultural perseguidos pela Geração de 70. Com efeito, é a partir e em função de uma atividade coletiva, que teve nas Conferências de Cassino o seu fator de aglutinação, que Eça de Queirós, mais claramente, percebe a necessidade de se fazer do fenômeno literário uma componente fundamental dessa vasta reforma de costumes que a Geração de 70 assumia como objetivo crucial. Por isso mesmo, numa carta a Teófilo Braga a propósito de O primo Basílio, Eça não só procura integrar o seu romance no âmbito da chamada “arte revolucionária”, como sobretudo afirma: É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e, com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre.
Obviamente, não é por acaso que estas afirmações são suscitadas por um romance naturalista, pois, entre a concepção queirosiana da arte empenhada e o Naturalismo existem conexões que, como veremos, eram inspiradas pelo perfil ideológico desse período estético e pelos termos muito ativos com que Eça o interpretava nas suas reflexões teóricas. Parece-nos oportuno mostrar que é ainda na órbita das inevitáveis relações entre literatura e sociedade que gira um projeto literário que Eça não pôde levar adiante, o plano das Cenas da vida portuguesa, concebidas como friso de novelas, visando alguns aspectos mais críticos e melindrosos da vida social portuguesa, do jogo à prostituição, passando pela agiotagem e pela política. Ora, este projeto vem mostrar, entre outras razões, por que o escritor não está em condições demanter uma ligação constante com a vida social que pretendia retratar. É ele próprio quem o reconhece, numa carta em que revela a Ramalho Ortigão a sua dificuldade em fazer avançar as Cenas Portuguesas: Longe do grande solo da observação, em lugar de passar para os livros, pelos meios experimentais, um perfeito resumo social, vou descrevendo, por processos puramente literários e a priori, uma sociedade de convenção, talhada de memória. De modo que estou nessa crise intelectual: ou tenho de me recolher ao meio onde posso produzir, por processo experimental – isto é, ir para Portugal – ou tenho de me entregar à literatura puramente fantástica e humorística.
Os artigos de periódicos literários e alguns textos de apresentação de obras e prefácios suscitam, da parte de Eça, a oportunidade para discutir e produzir os textos mais vivos e, em certos casos, polêmicos, pois inspiram um discurso teórico com mais intensa entoação programática. Considere-se em primeiro lugar que, quando se processa em Portugal a confrontação entre o Romantismo tardio e a literatura realista e naturalista, essa confrontação envolve, para além de diferenças propriamente estéticas, outras de cunho genericamente sociocultural, dominadas por uma concepção dinâmica e interventora das práticas culturais. A Geração de 70 não podia tolerar o imobilismo de teor alienante, em grande parte característico do grupo literário que rodeava João Feliciano de Castilho e que pactuava, de modo mais ou menos visível, com o sistema político-econômico da Regeneração. Um desses textos polêmicos é o célebre prefácio à obra Azulejos, do Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Pindela, um dos melhores amigos de Eça, datado de Bristol, 12 de junho de 1886. Coligido postumamente em 1909, por seu amigo Luís de Magalhães, em volume sob o título Notas contemporâneas, foi inicialmente publicado em 1886 como apresentação daquele livro de contos. Nesse prefácio, faz alusões aos naturalistas e idealistas (românticos) bem como críticas implícitas e evidentes,porém veladas, aos romances realistas de Camilo Castelo Branco, o que provocou uma viva resposta deste. A crítica que Eça nele fez aos políticos portugueses gerou um artigo de reação por parte de Oliveira Martins. No texto sobre Azulejos, derrama-se em elogios aos contos do amigo Bernardo, hoje completamente esquecidos, não fora o prefácio. Depois de elogiar o contista por ser “leitor perfeito, amador raro das lindas flores modernas de Fantasia e de Estilo” 21 , põe-se a considerar o Naturalismo, não sem antes o misturar com o Realismo, dizendo que se deleita com “frutos podres” 22 . Mas imediatamente pondera que “o Naturalismo consiste apenas em pintar a tua rua como ela é na sua realidade e não como tu a poderias idear na tua imaginação” 23 .
Enquanto isso, em Portugal, o “Naturalismo é coisa suja – e coisa suja ficará” 24 , tanto assim que “seria inútil ir explicar [...] o que significa Naturalismo” 25 . Estaria Eça pensando que Os Azulejos se inscreveriam no Naturalismo de Zola? Mais adiante, considera “esta maneira de pintar a verdade, levemente esbatida na névoa dourada e trêmula da fantasia, satisfazendo a necessidade de Idealismo que todos temos nativamente e ao mesmo tempo a seca curiosidade do real que nos deram as nossas educações positivas”. Não haveria um certo apego ao esteticismo, que nessa época se constituía em uma reação ao caráter positivista e combativo do Realismo? Ao divisar as duas modalidades de Naturalismo, não estaria Eça mais disposto a aceitar e a defender posições que, acima de tudo, não perdessem de vista o compromisso com a Arte e repudiassem as que se caracterizavam pela “grosseria e sujidade”, como menciona? Nessa linha de reflexão comenta as transformações sociais e a produção literária; a condição do leitor e a constituição do público; a relação do escritor com o público e com os mecenas – a relação de dependência e autonomia. Um texto em formato de carta dirigida a Mariano Pina, intitulado “A academia e a literatura” (publicado na primeira página do jornal de Lisboa O Repórter, a 27 de abril de 1888,mas datado de Bristol, 25 de janeiro de 1888 e, postumamente, integrado no volume Notas contemporâneas), tem como motivo o concurso da Academia Real de Ciências de Lisboa a que Eça concorreu com A Relíquia, de que Pinheiro Chagas foi o relator. Eça já se refere ao lusco-fusco em que se encontra o Naturalismo, como a afastar-se de uma vez por todas do código realista: Se a uma literatura faltarem os inovadores, revolucionando incessantemente a Idéia e o Verbo, [...] bem cedo se imobilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...].
bilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...]. De sorte que para possuir uma literatura ideal, forte mas fina, original mas equilibrada [...] será necessário que nele de certo modo se contrabalancem estas duas forças – a Tradição e a Invenção. Ou seja, de um lado, temos “os revoltosos, dando as emoções novas e criando as formas novas”, e de outro, as “Academias canalizando dentro do gosto, da elegância e do purismo estas correntes inesperadas de sensação e de idéia”; ou ainda “equilíbrio da Tradição e da Revolução” 28 . Eça de Queirós aponta para uma nostalgia do universo clássico da arte que sugere uma utopia revolucionária, arremessada para o futuro, utopia que, no final da década de 1880, transforma-se em utopia do passado, tão bem representado pela Arcádia no século XVIII. Nesse texto, Eça reflete sobre o escritor e a dimensão institucional da literatura, atentando para as posições e reações; comenta as funções e o mecanismo de atuação das instituições literárias; fala das academias como instituição e o academismo como mentalidade, bem como sobre as academias e seu papel na formação do cânone. No texto “Positivismo e Idealismo”, crônica publicada em A Gazeta de Notícias em 16 de junho de 1893, postumamente recolhida por Luís de Magalhães em Notas Contemporâneas (1909), Eça faz o balanço da literatura naturalista agonizante, diante da reação dos estudantes da Sorbonne ao positivismo científico e ao jacobinismo de 1789; mas também aponta a decadência do Naturalismo na literatura e o surgimento da correnteantagônica com os olhos voltados para a França, tentando mostrar o máximo de neutralidade possível. Deixa claro que as conquistas da ciência não serão alteradas, tornando-se portanto irreversíveis, e que a imaginação, sem recear a crítica da ciência, poderá ser exercida livremente. Leiamos seu texto: Em literatura estamos assistindo ao descrédito do Naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do Naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de d’Artagnan.

BIBLIOGRAFIA
1 Carlos Reis. O conhecimento artístico: uma introdução à teoria literária. Coimbra, Almedina, 1999. p. 489-490.
2 A. C. Matos. (pref. e org.). Polémica: Eça de Queiroz-Pinheiro Chagas, “Brasil e Portugal”. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2001. p. 43.
3 Beatriz Berrini. (Org. geral, introd., fixação dos textos autógrafos e notas introdutórias). Eça de Queiroz, Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000. Vol. 4, p. 84.
4 Berrini, 2000, p. 87.
5 Berrini, 2000, p. 90.
6 Berrini, 2000, p. 89.
7 Berrini, 2000, p. 917.
8 Berrini, 2000, p. 918.
9 Berrini, 2000, p. 920-921. Grifos nossos.
10 Carlos Reis. Introdução. In: Eça de Queirós. O crime do padre Amaro: 2ª e 3ª versões. Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (ed.). Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000. Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, p. 80, rodapé 142 e 143.
11 Carlos Reis. Qvinto Império. Salvador, Gabinete Português de Leitura, 2002. p.80.
12 Berrini, 2000, p. 912-913.
13 Berrini, 2000, p. 913.
14 Berrini, 2000, p. 913-914.
15 Berrini, 2000, p. 915.
16 Berrini, 2000, p. 913-914.
17 Berrini, 2000, p. 914. Grifos nossos.
18 Berrini, 2000, p. 914.19 Carta a Teófilo Braga, 12 de março de 1878. Berrini, 2000, p. 918.
20 Carta a Ramalho Ortigão, 8 de abril de 1878. Berrini, 2000, p. 123.
21 Berrini, 2000, p. 1793.
22 Berrini, 2000, p. 1797.
23 Berrini, 2000, p. 1795.
24 Berrini, 2000, p. 1796.
25 Berrini, 2000, p. 1797.
26 Berrini, 2000, p. 1800.
27 Berrini, 2000, p. 1701.
28 Berrini, 2000, p. 1701.
29 Eça de Queirós. Positivismo e idealismo. In: Berrini, 2000, p. 1.249. Este texto foi publicado inicialmente no jornal carioca Gazeta de Notícias, em 27 e 28 de julho de 1893. Postumamente, em 1909, foi publicado na coletânea Notas contemporâneas, com o mesmo título.
Rosane Feitosa
Fonte: www.letras.ufrj.br

MADAME BOVARY - GUSTAVE FLAUBERT

ESCRITOR FRANCÊS

Gustave Flaubert (1821-1880) foi escritor francês. Escreveu o romance "Madame Bovary" que o levou aos tribunais. Foi acusado de ofensa a moral e a religião. Foi absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena e condenado pelos puritanos, pelo tema adultério, pela crítica ao clero e à burguesia. É um dos representantes mais importantes do realismo francês.
Gustave Flaubert (1821-1880) nasceu em Roão, Normandia, França. no dia 21 de dezembro de 1821. Filho do médico cirurgião Achille-Cléophas Flaubert e Justine Caroline Fleuriot. Em 1832, entra para o Colégio Real. Distraído e desinteressado não gostava de estudar, preferia devorar romances. Redige o semanário escolar "Arte e Progresso". Aos 15 anos é atraído pelas peças de Shakespeare, Dumas e Vitor Hugo.
Adolescente se apaixona por Elisa Schlesinger, mulher casada e onze anos mais velha que ele. Entre 1837 e 1845 escreve o drama "Luís XI" e as novelas "Fantasia de Inferno", "Paixão e Virtude". O amor impossível inspirou-lhe os livros "Memórias de um Louco", "Novembro" e "Educação Sentimental".
Gustave Flaubert estuda Direito em Paris, para satisfazer a vontade do pai. Em 1844, após o fracasso nos exames, sofre o primeiro de seus ataques epiléticos. Abandona o curso e vai morar com a família na nova propriedade em Croisset, à margem do Sena, próximo de Ruão. Em 1846, morre seu pai e sua irmã Caroline. Conhece Louise Collet, separada do marido e mãe de uma jovem de 16 anos. Vivem uma aventura amorosa.
Em 1848, rompe o romance com Louise. Nesse mesmo ano morre seu amigo de infância Alfred Le Poittevin. Sua saúde se abala. A conselho médico vai para o Oriente, onde pretendia ficar dois ou três anos. Mas, no fim de alguns meses decide voltar para Croissent.
Em 1851, após longo período sem produzir, inicia "Madame Bovary", a mais famosa de suas obras, foram cinco anos de trabalho incessante. Escrevia e reescrevia a mesma página dezenas de vezes. Em 1856, o romance começa a ser publicado na Revue de Paris, com alguns cortes, em vista da austeridade dos costumes da época.
O livro conta a história de Emma Bovary, que se entrega a sucessivos casos de adultério para fugir da vida medíocre que julga levar ao lado do marido, um médico de província. O romance, que termina com o suicídio de Bovary, causa escândalo na França. Flaubert é acusado de imoralidade e processado.
Em janeiro de 1857, senta-se no banco dos réus ao lado de Laurente Pichat, o editor da revista. Oito dias depois o autor é absolvido e o livro, publicado em edição completa se esgota rapidamente. Gustave Flaubert morre no dia 8 de maio de 1880.

Fonte: http://www.e-biografias.net/gustave_flaubert Acesso em 02 de setembro de 2012.

MADAME BOVARY - GUSTAVE FLAUBERT
Publicado em 1857, Madame Bovary narra a estória da anti-heróica personagem Emma Bovary. O livro veio quebrar com os vigentes parâmetros do Romantismo e inaugurar o Realismo. O livro foi classificado na época como subversivo e rendeu vários processos contra Flaubert, mas em todo o autor se saiu vencedor.
Desde o início do livro a descaracterização da idealizada mulher Romântica é evidente. Emma Bovary é uma mulher insaciável, inteligente e bela, mas é obrigada a casar com um apático e passivo médico de uma pequena cidade do interior da França. Ela vive em um constante estado de opressão, onde as sonhadas diversões urbanas que ela imaginava nunca são concretizadas. Sua vida vai ficando cada vez mais monótona e ela começa a se arriscar em aventuras muito mais sérias.
Emma começa a se relacionar com outro homem e rapidamente se torna sua amante. Depois desse “amor” não dar certo, ela se entrega a outro, muito mais jovem que ela, e por isso ele nunca tem coragem de assumir esse romance e os dois acabam se separando. Diante destas desilusões amorosas, de dívidas que fizera e com a alma despeitada, Emma Bovary se mata e deixa claro que prefere morrer a enfrentar os eventuais problemas da vida.
Gustave Flaubert formulou uma crítica social muito contundente. Com seu estilo impessoal, ele soube fazer do adultério de Emma algo sórdido e ao mesmo tempo belo. Madame Bovary, vem meio que sem querer, traduzir o início da emancipação feminina e como essa liberdade, se usada sem idoneidade, pode se transformar em desastre.
O romance deixou os ânimos dos leitores europeus exasperados com suas doses de sexo, melancolia, ironia e emoção. Flaubert deixou claro que o livro é a retratação fiel da errônea sociedade burguesa com seus hábitos pouco louváveis e sua ostentação moral falsa.
Madame Bovary é um marco na literatura, um livro que veio ser a vanguarda do Realismo e mudou completamente a forma de escrever da época. A narrativa é suave e admirável, rica em detalhes e objetividade, o que faz da obra uma preciosidade que obtém o merecido rótulo de ser uma das melhores do século XIX.
Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/1003585 Acesso em 02 de setembro de 2012.

sábado, 1 de setembro de 2012

AS TRÊS GERAÇÕES DO ROMANTISMO BRASILEIRO


ROMANTISMO (PRIMEIRA GERAÇÃO)

 

HISTÓRICO (RESUMO)



O livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães (1811-1882), publicado em 1836, é tido como marco fundador do Romantismo no Brasil. Em torno e sob liderança de Magalhães, um grupo de homens públicos e letrados articulou as primeiras manifestações do Romantismo no Brasil, num momento caracterizado pela tentativa de definição de uma identidade nacional.
O fervor patriótico do grupo, integrado por Martins Pena (1815-1848), Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878) e João Manuel Pereira da Silva (1817-1895), entre outros, manifestou-se inicialmente por meio da imprensa. O primeiro veículo de divulgação consciente do ideário romântico foi a revista Niterói, que teve entre seus colaboradores Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), Francisco Sales Torres-Homem (1812-1876) e C. M. de Azeredo Coutinho. No período, destaca-se também a revista Guanabara, dirigida por Porto-Alegre, Gonçalves Dias (1823-1864) e Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882).
Foi à poesia, porém, que coube o papel de consolidação do Romantismo no país. Mais especificamente a Gonçalves Dias, poeta mais representativo da primeira geração do movimento. Em poemas de temática indianista, como I- Juca Pirama, ou patriótica, como Canção do Exílio, ele empregou temas caros aos autores românticos, como saudade, melancolia e natureza.
 

ESTILO - CARACTERÍSTICAS GERAIS

A primeira fase do Romantismo brasileiro, compreendida entre os anos de 1836 e 1852, caracterizou-se pela busca de definição de uma identidade nacional. Reunidos em torno de Gonçalves de Magalhães, cuja obra Suspiros Poéticos e Saudades, de 1836, é tida como marco fundador do movimento no Brasil, um grupo de homens públicos e letrados articulou a formação de um clima de opinião favorável à autonomia cultural do país. O processo de emancipação desencadeado daí em diante deve ser entendido, no plano cultural, como o equivalente da independência política, conquistada em 1822.
O fervor patriótico desse grupo, integrado por Martins Pena, Francisco Adolfo de Varnhagen e João Manuel Pereira da Silva, entre diversos outros, manifestou-se inicialmente por meio da imprensa, que desde a chegada de D. João VI, em 1808, tomava impulso no país. Nas três primeiras décadas do século XIX, foram fundadas dezenas de jornais e revistas, a maioria de duração efêmera. Mas a proliferação desses periódicos, geralmente dedicados à política, literatura e ciências, exprime a urgência e o anseio de expressar e fazer circular publicamente o conhecimento e a opinião.
A revista Niterói, fundada em 1836 por Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre, Francisco Sales Torres-Homem e Azeredo Coutinho, participa desse contexto de florescimento da imprensa. A publicação, também de cunho científico, literário e artístico, foi fundada em Paris e tinha como epígrafe a frase "Tudo pelo Brasil e para o Brasil", e foi a primeira a promover a difusão consciente do Romantismo no país. O programa de reforma e nacionalização da literatura brasileira, veiculado por artigos e estudos publicados na revista, tinha origem nas idéias do escritor português Almeida Garrett e do historiador francês Ferdinand Denis (1798 - 1890), pioneiro no estudo da literatura brasileira.
Dois anos mais tarde, em 1838, a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) representaria outro passo importante para a consolidação do movimento no Brasil. O Instituto tinha como objetivo a produção de estudos sistemáticos de aspectos variados da realidade nacional e congregou as principais figuras da intelectualidade brasileira da época, entre as quais J. M. Pereira da Silva e Joaquim Manuel de Macedo, que foi sócio-correspondente do IHGB. Parte das pesquisas realizadas pelos integrantes do grupo era publicada na revista da instituição, que foi de extrema importância para a divulgação do ideário Romântico no país.
Outras duas publicações contribuem de modo significativo para a sedimentação do movimento nessa primeira fase. São elas o jornal Minerva Brasiliense e a revista Guanabara. O primeiro durou dois anos - de 1843 a 1845 - e merece destaque pelos nomes que nele atuaram: tinha entre seus colaboradores Gonçalves de Magalhães, Odorico Mendes, Santiago Nunes Ribeiro e Teixeira e Sousa (1812-1861). Foi esse jornal que deu origem à revista Guanabara, editada entre os anos de 1850 e 1855. Dirigida por Porto-Alegre, Gonçalves Dias e Joaquim Manuel de Macedo, a revista exemplifica a organicidade do Romantismo brasileiro nesse primeiro momento, explicitando em seu artigo de apresentação o vínculo direto com as publicações que a antecederam.
No campo da prosa de ficção, as primeiras experiências românticas no Brasil estão bastante calcadas no romance europeu. A partir da década de 1830, traduções da obra de autores como Walter Scott, Chateaubriand e Balzac começam a ser publicadas nos jornais num formato que teria extrema popularidade no século XIX: o folhetim. A tentativa de se criar um "romance nacional" tem início nessa época. O Filho do Pescador (1843), de Teixeira e Sousa, é o primeiro passo nessa direção. Já no ano seguinte aparece A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. Para o crítico e historiador Antonio Soares Amora, esses livros inauguram duas tendências importantes da ficção romântica: a histórica e a urbana.
 

AUTORES
Entre os autores da Primeira Geração do Romantismo, o mais empenhado em articular a reforma romântica e nacionalista na literatura foi Gonçalves de Magalhães, que se dedicou à poesia, ao teatro, à ficção, à história e à elucubração filosófica. No campo literário, sua obra mais importante é Suspiros Poéticos e Saudades, lembrada como marco inaugural do Romantismo. Mas a importância histórica de Magalhães deve-se principalmente à figura centralizadora, que estimulou e coordenou a reforma romântica.
Indicativos de seu papel de reformulador são os ensaios Discurso Sobre a História da Literatura do Brasil e Filosofia da Religião, ambos publicados na revista Niterói em 1836. No primeiro texto, Magalhães argumenta que o Brasil possui uma literatura ligada à evolução histórica do país e que, portanto, apresenta objetos dignos de inspirar escritores. No segundo, afirma que a religião é um dos elementos básicos da sociabilidade e deve, em conseqüência, ser tema de produções artísticas. O intuito era mostrar a literatura como espírito da evolução histórica do país, e o mérito do texto está em postular a necessidade de se estudar os escritores brasileiros do passado para definir a continuidade com o presente. A religião seria o liame capaz de estabelecer a conexão com os antecessores.
Pereira da Silva e Santiago Nunes Ribeiro também produziram textos de importância para a consolidação do movimento. No segundo número da mesma Niterói, Silva publicou Estudos Sobre a Literatura. Nesse texto, ele retoma os temas de Magalhães e argumenta que o Brasil tinha necessidade de manifestar uma literatura própria, o que requer rejeição da imitação clássica e atenção às inspirações locais. Foi ele o primeiro a apontar o Romantismo como guia para se levar esse projeto adiante. Já Nunes Ribeiro é autor do ensaio Da Nacionalidade da Literatura Brasileira. Publicado no jornal Minerva Brasiliense, o texto defende a tese de que a literatura nacional existe desde os primeiros autores do período colonial, de muita consequência para futuras elaborações teóricas sobre a independência da literatura brasileira em relação à Europa.
Autor de A Moreninha (1844), O Moço Louro (1845) e Os Dois Amores (1848), entre muitos outros, Joaquim Manuel de Macedo é o prosador de maior destaque nesta fase inicial do Romantismo. Até porque José de Alencar, em todos aspectos o nome mais importante da prosa romântica brasileira, ainda não tinha começado a carreira literária. Também autor de poemas e de doze peças de teatro, Macedo atuou como cronista no Jornal do Commercio, onde mantinha a coluna A Semana. Como ficcionista, foi o primeiro autor a transpor os tipos, as cenas, a vida da sociedade do Rio de Janeiro para o gênero romance - o que era novidade no país.
Macedo obteve grande popularidade ao abordar cenário e personagens familiares para os leitores cariocas, ao descrevê-los de maneira ligeira, sentimental e novelesca, tal como prescrevia o modelo folhetinesco francês. "Realidade, mas só nos dados iniciais; sonho, mas de rédea curta; incoerência, à vontade; verossimilhança, ocasional; linguagem, familiar e espraiada: eis a estética dos seus romances", define Antonio Candido (1918) no livro Formação da Literatura Brasileira.
Foi à poesia, porém, que coube o papel de consolidação do Romantismo no país. Mais especificamente a Gonçalves Dias, o poeta mais representativo da primeira fase do movimento. Em poemas de temática indianista, como I- Juca Pirama, ou patriótica, como Canção do Exílio, ele transformou em experiência o que antes era apenas tema. A transformação fica evidente ao se comparar O Dia 7 de Setembro, de Gonçalves de Magalhães, com a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. O assunto comum - o amor e a saudade da pátria - é abordado em tom protocolar e oficial no poema de Magalhães, ao passo que Gonçalves Dias harmoniza rigor formal e sentimento num poema ainda hoje capaz de fazer vibrar as cordas do amor pelo país natal.
Graças à complexidade dos recursos formais empregados por Gonçalves Dias, saudade, melancolia, natureza, índio, enfim, toda a galeria temática do Romantismo ganha significado para além da tentativa de se fazer um mero registro da realidade do país.

Atualizado em 23/06/2010

 


 
ROMANTISMO (SEGUNDA GERAÇÃO)

 
HISTÓRICO (RESUMO)

A segunda geração do Romantismo tem seus traços mais facilmente identificáveis no campo da poesia e seu marco inicial é dado pela publicação da poesia de Álvares de Azevedo (1831 - 1852), em 1853. Em vez do índio, da natureza e da pátria, ganham ênfase a angústia, o sofrimento, a dor existencial, o amor que oscila entre a sensualidade e a idealização, entre outros temas de grande carga subjetiva. Exemplares desse período são as obras de Fagundes Varela (1841 - 1875), Casimiro de Abreu (1839 - 1860) e Álvares de Azevedo (1831 - 1852).
Em 1856, com a polêmica em torno no poema A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães (1811 - 1882), ganha expressão a figura de José de Alencar (1829 - 1877), o mais importante prosador do Romantismo brasileiro. Nas objeções que faz a Magalhães, Alencar manifesta sua posição a respeito das correntes nacionalistas e delineia o programa de literatura indianista que seguiria nos anos seguintes. As premissas de O Guarani (1857), Os Filhos de Tupã (1863), Iracema (1865) e Ubirajara (1874) estão formuladas nos artigos escritos a propósito da polêmica.
A ficção com ambientação urbana toma corpo neste período. Iniciada com A Moreninha, de Macedo, a linhagem tem continuidade com Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Publicado em folhetim entre 1852 e 1853, o livro pode ser lido como uma reação aos hábitos inspirados no "refinamento" da corte. Assim como os livros de Macedo, foi sucesso de público e contribuiu para a criação do romance brasileiro.
Bernardo Guimarães (1825 - 1884), Varnhagen, Pereira da Silva, Luiz Gama (1830 - 1882), José Bonifácio e Machado de Assis (1839 - 1908) também tiveram participação importante na produção intelectual do período. Além das atividades como poetas ou romancistas, eles protagonizaram o debate de idéias, geralmente veiculado pela imprensa, de fundamental importância para a consolidação da literatura no Brasil.

 
ESTILO - CARACTERÍSTICAS GERAIS

A publicação do livro Poesias, de Álvares de Azevedo, em 1853, é considerada por parte da crítica como marco inicial da segunda geração do Romantismo no Brasil. Essa geração, cujos maiores expoentes são Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, tem a marca do ultra-romantismo. A angústia, o sofrimento, a dor existencial, o amor que oscila entre a sensualidade e a idealização são alguns dos temas de grande carga subjetiva que tomam o lugar do índio, da natureza e da pátria, dominantes na geração anterior.
Essa exacerbação da sentimentalidade e das fantasias da imaginação mórbida exige uma versificação mais livre, menos apegada a esquemas formais preestabelecidos, e define as obras poéticas de maior impacto do período, como Um Cadáver de Poeta, de Álvares de Azevedo.
Inspirados pelo inglês Byron, pelo italiano Giacomo Leopardi e pelos franceses Alphonse de Lamartine e Alfred de Musset, os poetas da segunda geração escrevem poemas que sugerem uma entrega total aos caprichos da sensibilidade e da fantasia, abordando temas que vão do vulgar ao sublime, do poético ao sarcástico e ao prosaico. A morte precoce ajudou a compor a mística em torno desses poetas de inspiração byroniana, que não raro fazem apologia da misantropia e do narcisismo, cultivam paixões incestuosas, macabras, demoníacas e mórbidas.
No campo da crônica e da prosa jornalística de maneira geral, talvez seja mais adequado considerar 1856 como o momento de transição para a segunda geração romântica. Nesse ano foi publicado A Confederação dos Tamoios, poema épico de Gonçalves de Magalhães que deu início à polêmica mais importante do movimento, travada justamente entre os defensores de Magalhães e o mais expressivo prosador do Romantismo: José de Alencar.
O assunto abordado pelo poeta é a rebelião dos tupis contra os portugueses ocorrida no Rio de Janeiro no século XVI, com destaque para a figura do chefe Aimbire, transformado em símbolo de resistência do homem americano. Impresso às custas do Imperador Pedro II, o poema era expressão acabada da literatura oficial. Em parte por essa razão, José de Alencar, recém-iniciado na carreira literária, manifestou-se publicamente sobre o texto. Escreveu diversos artigos, assinados sob o pseudônimo Ig, em que denunciava a inferioridade da realização do poeta ante a magnitude do objeto. Porto-Alegre, Monte Alverne e, num caso único no país, o próprio Imperador, saíram em defesa do poeta. Alencar, por sua vez, foi secundado por Ômega, pseudônimo do jornalista Pinheiro Guimarães.
É nesse momento que se articula uma faceta importante do projeto literário de Alencar. Nas objeções que faz a Magalhães em seus artigos, Alencar manifesta sua posição a respeito das correntes nacionalistas e delineia o programa de literatura indianista que seguiria nos anos seguintes. As premissas de O Guarani (1857), Os Filhos de Tupã (1863), Iracema (1865) e Ubirajara (1874) podem todas ser extraídas dos textos escritos a propósito da polêmica. "A crítica dos criadores é muitas vezes programa; examinando outros escritores, procuram ver claro neles mesmos", escreve Antonio Candido (1918) respeito desse episódio. Cabe notar que a discussão em torno do livro A Confederação dos Tamoios revela ainda a existência de uma dimensão pública para o debate literário, praticamente inexistente nos períodos anteriores e que ganha impulso com a expansão da atividade da imprensa.
Além de Alencar, outros autores, entre eles Dutra e Melo, Junqueira Freire, Álvares de Azevedo e Franklin Távora (1842 - 1888), contribuem para o adensamento da atividade crítica nesse momento. Em publicações como Nova Minerva, Correio Paulistano e Atualidade, eles produzem ensaios, prefácios e artigos que atestam a importância do momento para o estabelecimento definitivo de uma crítica literária no país.
Paralelamente a isso, Pereira da Silva, Antônio Henriques Leal, Varnhagen, entre críticos, eruditos e professores de origem diversa, reúnem textos, editam antologias, pesquisam biografias, redescobrem autores brasileiros do passado, vão, enfim, tornando possível a principal aspiração do Romantismo no plano da crítica: elaborar uma história literária que exprimisse a imagem da inteligência nacional na seqüência do tempo. No entanto, só a partir de 1880, com a publicação da História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero (1851 - 1914), esse processo ganharia uma síntese de grande expressão.
Além do indianismo, outras vertentes temáticas características da prosa romântica tomam corpo. A urbana, por exemplo. Iniciada com A Moreninha, de Macedo, essa linhagem tem continuidade por meio de uma das melhores obras do período: Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Publicado em forma de folhetim entre 1852 e 1853, o livro pode ser lido como uma reação ao esnobismo afrancesado, aos hábitos inspirados no "refinamento" da corte. Ambientada no tempo de D. João VI, a história criada por Almeida centra foco nos estratos mais baixos da sociedade. Assim como os livros de Macedo, foi sucesso de público e teve contribuição importante para a criação de uma ficção brasileira original.
Dois anos depois da publicação da obra de Manuel Antônio de Almeida, Alencar começa a carreira literária. Seus primeiros livros, Cinco minutos e Viuvinha, publicados em folhetim em 1856 e 1857 no Diário de Rio de Janeiro, definem as fórmulas dos "perfis femininos" e dos "quadros de sociedade", segundo a definição do crítico Antônio Soares Amora. Ambos pertencem à temática urbana, da qual ainda fariam parte Lucíola (1862), Diva (1864), A Pata da Gazela (1870), Sonhos D?Ouro (1872) e Senhora (1875).

 
AUTORES

José de Alencar, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Varnhagen, Pereira da Silva, Luiz Gama (1830 - 1882), José Bonifácio, Machado de Assis. São esses alguns dos autores que produziram textos importantes para a formação da consciência literária do período. Geralmente voltados para atividades literárias de outro teor, como a poesia e o romance, eles protagonizaram um debate de idéias, no mais das vezes veiculadas pela imprensa, de importância fundamental para a consolidação da literatura no Brasil.
Poeta mais destacado da segunda geração romântica, Álvares de Azevedo é autor de alguns dos poemas mais ilustrativos desse Romantismo calcado nos dramas da subjetividade, no pessimismo e na obsessão pela morte, presente em títulos como Um Cadáver de Poeta, Se Eu Morresse Amanhã e Lembrança de Morrer. Ele também é autor de dois ensaios importantes, Jacques Rolla e Literatura e Civilização em Portugal, escritos entre 1849 e 1850. Em ambos, discorre principalmente sobre sua concepção do belo e tece considerações sobre psicologia literária. Apesar de morto antes de completar vinte e um anos, deixou nesses textos, assim como na excelente obra poética que realizou, uma consciência aguda dos problemas estéticos de seu tempo.
Varnhagen e Pereira da Silva são autores de alguns dos compêndios mais importantes do período. O Florilégio da Poesia Brasileira (1850-1853), de Varnhagen, é a antologia de literatura mais rica de seu tempo. Foi a que proporcionou pela primeira vez um conjunto de poemas de Gregório de Matos (1636 - 1696), cuja descoberta se deve ao Romantismo. Pereira da Silva, por sua vez, tem importância pela pesquisa biográfica que realizou. Em 1856, publicou Varões Ilustres do Brasil Durante os Tempos Coloniais, compêndio de vinte biografias de importantes intelectuais brasileiros cujo modelo era inspirado na obra do historiador romano Plutarco.
Bernardo Guimarães (1825-1884) é outro nome importante do período. Em São Paulo, conviveu com Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e José Bonifácio, o Moço. Entre 1858 e 1861 viveu no Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista e crítico literário do jornal Atualidade. Nesse momento, a defesa de idéias republicanas e mais tarde anti-escravistas começa a tomar forma consistente. Alguns de seus principais defensores, como José Bonifácio, o Moço (1827-1886), e Luiz Gama (1830-1882), foram também importantes cronistas do período.
Bonifácio, por exemplo, foi diretor do jornal Ipiranga e colaborador em A Tribuna Liberal, de Inglês de Souza (1853 - 1918), no Rio de Janeiro. Além de deputado e senador, foi professor na Faculdade de Direito de São Paulo, onde teve como alunos Rui Barbosa (1849 - 1923), Castro Alves (1847 - 1871), Joaquim Nabuco e Afonso Pena. Gama, por sua vez, foi fundador do jornal Diabo Coxo. O periódico era ilustrado pelo italiano Angelo Agostini e é considerado marco da imprensa humorística em São Paulo. Entre 1864 e 1875, Luiz Gama colaborou nos jornais Ipiranga, Cabrião, Coroaci e O Polichileno. E fundou, em 1869, o jornal Radical Paulistano, com Rui Barbosa.
Até Machado de Assis (1839-1908), maior prosador do Realismo brasileiro e geralmente identificado com o período posterior ao Romantismo, exerceu atividade influente na imprensa nas décadas de 1850 e 1860, antes de estrear como romancista em 1872. Machado começou a trabalhar aos 16 anos como tipógrafo aprendiz da Imprensa Nacional. Aos 18, entrou na tipografia de Paula Brito, que publicava o jornal A Marmota Fluminense, que em 1855 estampou um de seus primeiros poemas, Ela. Nos anos seguintes trabalhou como cronista, crítico literário e teatral de vários jornais, entre eles Correio Mercantil, Ilustração Brasileira e Gazeta de Notícias.

Atualizado em 23/06/2010

 


 

TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA: CASTRO ALVES (1847 – 1871)

Nascido no Estado da Bahia, na cidade que hoje leva seu nome, Castro Alves fez seus primeiros estudos em Salvador, junto com o colega Rui Barbosa. Estudou na Faculdade de Direito do Recife, onde se juntou a Tobias Barreto e participou ativamente da vida literária acadêmica. Já na adolescência, Castro Alves produzia precocemente seus primeiros versos, começando, na Faculdade, a alcançar notoriedade. Tinha uma vida amorosa intensa, da qual se pode destacar o romance com a atriz Eugênia Câmara, que lhe rendeu boa parte dos seus versos líricos. Em viagem para o sul do país com a atriz, Castro Alves conhece José de Alencar e Machado de Assis. Matricula-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma que Rui Barbosa. O rompimento com Eugênia deixa o poeta desolado e, mais uma vez, juntam-se à sua obra lírico-amorosa intensos e dolorosos versos. Para esquecer a perda, o poeta distrai-se em caçadas e em uma delas fere o pé com um tiro de espingarda, o que o leva a amputá-lo. Bastante debilitado, a tuberculose que se manifestara já no ano de 1863, quando o poeta tinha apenas dezesseis anos, agravou-se, o que leva Castro Alves a voltar para a Bahia, hospedando-se em fazendas de parentes, em busca de melhora. Neste período, cuida da edição de seu primeiro livro, único a ver publicado: Espumas Flutuantes. Morre um ano depois desta publicação, em 1871, com 24 anos.
 “Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão”, assim falou de Castro Alves o também poeta Manuel Bandeira. Fortemente influenciado por Victor Hugo, bem como pela nova condição do Brasil, que aos poucos deixava de ser puramente rural para se urbanizar, o que levou ao desenvolvimento de ideais democráticos e o de repulsa pela “moral do senhor-e-servo”, Castro Alves foi inovador justamente pelo seu epos libertário. Além disso, original na obra do poeta será também os seus versos de substância amorosa pela franqueza e realismo no exprimir das paixões e desejos e na descrição erótica da mulher.
Na poesia social, humanitária e nacionalista, Castro Alves exibe toda a sua eloquência épica. Seus versos de temática social, de tom oratório e de excepcional comunicabilidade, aproximam-se da retórica, esquecendo-se, verdade seja dita, por vezes, nela mesma, acabando em verborragia vazia, ancorada em combinações sonoras sem nexo. Esse exagero advém das influências de sua época, da qual a oratória era a menina dos olhos. Mas, se por um lado o jovem poeta abusou forçosamente da superposição de imagens e de aposições, pecando, ocasionalmente, pelo excesso e mau-gosto, por outro, ele soube, com esses e outros recursos, alcançar, nas palavras de Manuel Bandeira, “a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira”.
Vale lembrar que o tom oratório dos versos de Castro Alves deve-se a um propósito pragmático dos seus cantos, o de alcançar multidões. Seus poemas são escritos com a intensão de serem declamados em praça pública, teatros e grandes salas, como verdadeiros discursos. É essa a missão do poeta, a de anunciar a todos o “Novo Mundo”, a de persuadir a todos da necessidade de mudança. Daí a épica retumbante de seus versos, as apóstrofes violentas, as antíteses constantes, as hipérboles e metáforas ousadas, enfim, o tom grandiloquente de seus cantos.
Inspirado por Victor Hugo, Castro Alves foi o arauto da liberdade e da justiça. Envolvendo-se em todos os acontecimentos históricos de sua época, foi vate e profeta ao anunciar a abolição da escravatura e a instauração do regime republicano.
De sua poesia social, destacam-se dois longos poemas com os quais, segundo Manuel Bandeira, Castro Alves atingiu “a maior altura de seu estro”: “Vozes d’África” e “O Navio Negreiro”, ambos pertencentes ao livro Os Escravos. No primeiro, temos o continente escravizado a implorar justiça de Deus e no segundo temos o evocar dos sofrimentos dos negros em um navio que transportava escravos da África para o Brasil.
Enquanto poetas de gerações românticas anteriores tomaram o índio como herói, Castro Alves o fez com o negro. Escolha não muito tranquila, já que o negro, ao contrário do índio, era tido como ser sem-alma, não tendo para a sociedade nenhum valor mítico. Devido a isso, o negro, na poesia de Castro Alves, é quase sempre concebido como um mulato com sensibilidades de um branco.
Mas o poeta baiano não foi o primeiro da literatura brasileira a tomar como herói o negro escravizado, porém, tornou-se o poeta por excelência dos escravos, sendo inclusive chamado de “O Poeta dos Escravos”, ao dar ao negro uma atmosfera de dignidade lírica. Ao mostrar a sua bravura e coragem, bem como suas dores e amores, Castro Alves eleva o negro ao mesmo patamar do branco e do índio literário.
Abaixo, transcrevemos trechos do poema “Vozes d’África” e indicamos um vídeo com uma declamação de trechos do poema “O Navio Negreiro” com o ator Paulo Autran e imagens do filme “Amistad”, de Steven Spielberg:

 
VOZES D’ÁFRICA

 Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

 Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

 Embuçado nos céus?

 Há dois mil anos te mandei meu grito,

 Que embalde desde então corre o infinito...

 Onde estás, Senhor Deus?...

 [...]
Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos - alimária do universo,

Eu - pasto universal...


Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais... irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito...

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

 O NAVIO NEGREIRO

A poesia lírica de Castro Alves está representada no livro Espumas Flutuantes. Contudo, este livro não é composto exclusivamente por versos líricos, pois nele ainda figuram algumas composições de caráter épico-social, tais como “O Livro e a América”, “Ode ao Dous de Julho” e “Pedro Ivo”.
 Ao contrário de sua poesia épico-social, a poesia lírica do Poeta dos Escravos exprime-se quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade. Na lírica, seu verso se faz sugestivo e as metáforas naturais. A experiência amorosa é relatada de maneira integral, em toda a sua plenitude sentimental e carnal. Em Castro Alves, o amor é desejo, vibração da alma e do corpo, superando, dessa forma, o amor como esquivança e desespero ansioso da geração anterior. Sobre isso, apontou Machado de Assis que a musa de Castro Alves tinha feição própria e que, finalmente, aparecera um poeta original. Abaixo, um trecho do poema “O Adeus de Tereza”:

 

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta

a correnteza,

A valsa nos levou nos giros

seus...

E amamos juntos... E depois

na sala

"Adeus" eu disse-lhe

a tremer co'a fala...

 

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus...

Era eu... Era a pálida Teresa!

"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio

Prazeres divinais... gozos do Empíreo...

... Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!...

Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...

E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

 

Além do tema do amor, também figuraram na poesia lírica de Castro Alves os temas da natureza e da morte. As imagens e metáforas grandiosas do poeta são inspiradas nos aspectos grandiosos da natureza, tais como o oceano, o deserto, o infinito. Também são escolhidas com o mesmo propósito engrandecedor as aves de grande porte e de alto voo, como o condor, a águia, o albatroz. Quando questionado, em entrevista concedida ao escritor e professor Augusto Sérgio Bastos, sobre a poesia na metade do séulo XIX, Castro Alves respondeu:
“A poesia na terra dos Andradas, dos Pedros Ivos, e dos Tiradentes deve ser majestosa como as matas virgens da América; arrojada como seus rios gigantes; livre como os ventos que passam gementes por suas várzeas, e que zurzem os costados pedregosos dos seus gigantes de granito.”
 Castro Alves toma a natureza como metáfora para a expressão de ideais elevados e da volúpia do amor e do desejo, retratando as suas aspirações ao lado das paisagens brasileiras em versos de beleza incomparável.
Também a morte, que perseguiu o poeta desde cedo (aos 16 anos se manifestara no poeta a tuberculose), foi tema recorrente na poesia de Castro Alves. Porém, ao contrário dos poetas que o precederam, o jovem baiano não desejava a morte, não a louvava em seus versos. A morte, em Castro Alves, aparece como amargura limitadora do desejo de viver do poeta. Castro Alves ama a vida e seus prazeres, tem desejo por mudar as estruturas sociais de seu país, quer justiça e igualdade, quer mais vida para cantar esses ideais, para bradar aos céus, ao oceano, o seu canto. Exímio representante dessa temática é o poema “Mocidade e Morte”, um dos mais belos representes da lírica de Castro Alves, que, apesar de ter a morte como tema, não deixa de ser um hino de celebração e amor à vida:

 
Mocidade e Morte

Oh! Eu quero viver, beber perfumes

Na flor silvestre, que embalsama os ares;

Ver minh'alma adejar pelo infinito,

Qual branca vela n'amplidão dos mares.

No seio da mulher há tanto aroma...

Nos seus beijos de fogo há tanta vida...

— Árabe errante, vou dormir à tarde

À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:

Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,

E a alma um cisne de douradas plumas:

Não! o seio da amante é um lago virgem...

Quero boiar à tona das espumas.

Vem! formosa mulher — camélia pálida,

Que banharam de pranto as alvoradas.

[...]

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito

Um mal terrível me devora a vida:

Triste Ahasverus, que no fim da estrada,

Só tem por braços uma cruz erguida.

Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,

Sombra de morte no ramal encerra!

Vivo - que vaga sobre o chão da morte,

Morto - entre os vivos a vagar na terra.

[...]

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,

Quando a sede e o desejo em nós palpita...

[...]

Sinto que do viver me extingue a lampa...

Resta-me agora por futuro — a terra,

Por glória — nada, por amor — a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria

Já me foge a razão na noite fria!..

 

O ROMANTISMO

INTRODUÇÃO AO ROMANTISMO NO BRASIL

O Romantismo foi um movimento artístico ocorrido na Europa por volta de 1800, que representa as mudanças no plano individual, destacando a personalidade, sensibilidade, emoção e os valores interiores.
Atingiu primeiro a literatura e a filosofia, para depois se expressar através das artes plásticas. A literatura romântica, abarcando a épica e a lírica, do teatro ao romance, foi um movimento de vaguarda e que teve grande repercussão na formação da sociedade da época, ao contrário das artes plásticas, que desempenharam um papel menos vanguardista.
A arte romântica se opôs ao racionalismo da época da Revoluçao Francesa e de seus ideais, propondo a elevação dos sentimentos acima do pensamento. Curiosamente, não se pode falar de uma estética tipicamente romântica, visto que nenhum dos artistas se afastou completamente do academicismo, mas sim de uma homogeneidade conceitual pela temática das obras.
A produção artística romântica reforçou o individualismo na medida em que se baseou em valores emocionais subjetivos e, muitas vezes, imaginários, tomando como modelo os dramas amorosos e as lendas heróicas medievais, a partir dos quais revalorizou os conceitos de pátria e nacionalismo. Papel especial desempenharam a morte heróica na guerra e o suicídio por amor, nos moldes da obra Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.
No Brasil, o momento histórico em que ocorre o Romantismo tem que ser visto a partir das últimas produções árcades, caracterizadas pela satírica política de Gonzaga e Silva Alvarenga, bem como as idéias de autonomia política comuns naquela época. Em 1808, com a chegada da corte, o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização, tornando-se um campo propício à divulgação das novas influências européias; a Colônia caminhava no rumo à emancipação política.
Após 1822, cresce no Brasil independente o sentimento de nacionalismo, busca-se o passado histórico, exalta-se a natureza da pátria; na realidade, características já cultivadas na Europa e que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais, financeiras e econômicas. Se lá, valorizava-se a Idade Média e a formação dos Estados Nacionais, aqui, esse papel coube ao momento anterior à vinda dos portugueses, ou seja, ao período pré-cabralino.
De 1823 a 1831, o Brasil viveu um período conturbado como reflexo do autoritarismo de D. Pedro I: a dissolução da Assembléia Constituinte; a Constituição outorgada; a Confederação do Equador; a luta pelo trono português contra seu irmão D. Miguel; a acusação de ter mandado assassinar Líbero Badaró e, finalmente, a abdicação. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. É neste ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro, carregado de lusofobia e, principalmente, de nacionalismo.
A esse sentimento nem tanto xenófobo, mas nacionalista, Gonçalves de Magalhães assim se expressa:
       Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres.
      No começo do século atual, com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua literatura. Uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia até então desconhecida; é a idéia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade, instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais são os objetivos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam.

CARACTERÍSTICAS  

Um dos fatos mais importantes do Romantismo foi a criação de um novo público, uma vez que a literatura torna-se mais popular, o que não acontecia com os estilos de época de características clássicas. Surge o romance, forma mais acessível de manifestação literária; o teatro ganha novo impulso, abandonando as formas clássicas. Com a formação dos primeiros cursos universitários em 1827 e com o liberalismo burguês, dois novos elementos da sociedade brasileira representam um mercado consumidor a ser atingido: o estudante e mulher. Com a vinda da família real, a imprensa passa a existir no Brasil e, com ela, os folhetins, que desempenharam importante papel no desenvolvimento no romance romântico.
No prefácio de Suspiros poéticos e saudades, Gonçalves de Magalhães também nos fornece uma visão do que era o Romantismo para um autor romântico:

       É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos impérios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus, e os prodígios do cristianismo; ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos; ora enfim refletindo sobre a sorte da pátria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. Poesias d’alma e do coração, e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. Quanto à forma, isto é, a construção, por assim dizer, material das estrofes, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéias como elas se apresentaram, para não destruir o acento da inspiração; além de que, a igualdade de versos, a regularidade das rimas, e a simetria das estrofes produz uma tal monotonia, que jamais podem agradar.